«Ls» a revisitar…

Há locais que revisitamos com alguma frequência, porque nos fazem sentir bem: uma praia escondida, pouco conhecida e pouco visitada, mesmo inóspita; uma paisagem campestre de uma maior comunhão com a natureza; uma paisagem citadina que, do alto de um arranha-céus, vê longe e abarca a linha do horizonte abstraindo do elemento vidro e betão para observar apenas a beleza da construção geometricamente feita por mão humana quantas vezes a desafiar as leis da física, do equilíbrio e da sustentação.

Porém, não são apenas os locais que revisito de quando em vez. Há livros que gosto de reler, de ressaborear algumas passagens que me transportam para outros mundos, quiçá inexistentes, só ao alcance dos amantes da leitura e de prazeres mais pacíficos e igualmente gratificantes como a criação, a transposição para um papel de meia dúzia de linhas mal alinhavadas ou do esboço de uma figura, de uma paisagem, de um objeto… Há livros que são tesouros!

E não me refiro a obras de ficção, tipo romance ou novela ou conto. Falo mesmo de livros de caráter didático como “O Diário” de Sebastião da Gama (obra de leitura obrigatória no estágio, no meu tempo!), “A Imaginação” e “O Poeta faz-se aos dez anos” de Maria Alberta Menères, “Como um Romance” de Daniel Pennac, “Por uma Educação Romântica” de Rubem Alves, só para citar alguns, o que não é de admirar se pensarmos que fui e sou educadora.

Podem não concordar, mas não achava estranho que uma professora, que fui e sempre serei, escolhesse livros de pedagogia quando estava mais cansada, num estado semidepressivo, desiludida com os alunos, os superiores (tão longe e tão indiferentes aos seus/ nossos problemas, causando-os para cúmulo!) ou com os colegas de profissão e de “calvário”. Quantas estações teria ainda a Via Sacra?

Eis a razão por que, sempre que queria refletir, pensar na vida, principalmente na carreira profissional, pegava num desses livrinhos e relia certas frases que tinham o condão de me acalmar, de me dar força para continuar, de verificar que, no fundo, bem no fundinho, até valia a pena continuar, porque havia sempre alguém que nos dava valor, algum valor e que nos pagava com a moeda que valia a pena- o sorriso, quantas vezes molhado, um riso meio envergonhado, um abraço sentido, um pensamento meigo, uma carícia apenas adivinhada, um carinho mal feito… A capacidade de “sonhar” permanecia e permanece intacta, o que era e é importante, pois, como diz o poeta, “o sonho comanda a vida” e, quando essa capacidade desaparecer, então desaparecerá a vontade de viver, de lutar, de enfrentar os problemas com que me deparo quotidianamente. Por outro lado, “imaginação” não faltava nem falta e esta característica levava à anterior, desde que não pusesse ou ponha travão à mente e me deixe levar por essa magia de que todos dispomos mas a que tão poucos dão uso, seja em cavalgada deliciosa num maravilhoso corcel alado, num unicórnio ou, mais modernamente, numa micronave (a nanotecnologia impôs-se, o mundo das coisas ínfimas, infinitamente pequenas, tão pequenas que nem conseguimos imaginar), seja até por teletransporte enquanto o diabo esfrega um olho.

Como veem, já me deixei empolgar e partir desvairada a caminho de novas aventuras… pedagógicas, tema da conversa ou assim pretendia ser. Nem parece que hoje é um desses dias “down” em que a água alagou a natureza e se impôs à alma carente de novos incentivos.

É sempre assim. Quando começo a escrever, dá-se um clique e pronto. Parto para novas paragens e até me esqueço que devia estar deprimida por isto ou por aquilo. Sinto-me uma felizarda por poder fazer uma coisa de que gosto imenso, quando me apetece, mesmo que os armários comecem a estar cheios de textos, de livros e de mais material que está à espera de melhores dias ou de ser despejado no lixo. Não tenho pressa. Outros dias virão e, com eles, uma nova carreira que me tem acompanhado ao longo da vida, a de escritora e poetisa, por isso não lhe sinto a falta. Ela está lá, escondida mas muito intensa e vivida.

E lá comecei a fugir da estrada traçada, novamente. Espírito rebelde, sem dúvida nenhuma. Ora, como eu dizia, elevar a autoestima dos que me cercavam (os alunos) era uma obrigação que, transformada em bom hábito, me ajudava nestes momentos menos bons, mesmo que o apoio não viesse do exterior.

Nestas alturas, nomeadamente quando chove na natureza ou quando o nevoeiro cerra fileiras e desce um manto húmido e esbranquiçado sobre todas as coisas, sento-me à mesa, pego numa esferográfica ou marcador de ponta fina e começo a escrever, a verter as ideias que me ocorrem para o papel, sem preocupação de lhes dar forma, de as cuidar, de olhar o estilo. Umas serão futuras crónicas, algumas transformar-se-ão em histórias de encantar ou sem encantamento nenhum, outras não passarão de breves desabafos, ideias que vão desfilando sem bandeira, sem rei nem roque e que vão desaguar invariavelmente numa gaveta onde acumulo os mais variados tipos de excertos, frases soltas, a vermelho, a azul, a preto, em folhas variadas no tamanho e na forma, velhos sobrescritos inutilizados com histórias escritas ou breves ideias que não foram exploradas. Depois, de vez em quando, pego naquele material e ponho-me a relê-lo. Sabem, apanhei agora o vício de datar tudo o que escrevo para, desta forma, ter consciência dos anos em que este pedaço e aquele ficaram guardados no esquecimento da gaveta, não da minha memória. E que alegria, quando juntando pequenas amostras consigo dar-lhes um começo, um desenvolvimento e um fim. Que diferença!

 Atualmente, adoro não saber como é que uma história vai acabar. Escrevo ao correr da pena e da imaginação e quando me apetece, onde me apetece. O bloco, como já disse vezes sem conta, é o meu fiel companheiro de todos os momentos. Gasto muitos ao longo do ano, porque não consigo estar parada. Faço exactamente o que dizia aos meus alunos para não fazerem, já que lhes ensinava que todo o texto deve obedecer a um esquema prévio!

E a água continua a cair lá fora, certinha, aborrecida e aborrecendo. Mais um dia se aproxima do seu fim, menos um dia para viver. Que grande verdade! Só num dia como o de hoje se podem tirar estas ilações tão profundas! Pff! A neura regressou e eu que a ature.

Faço uma pausa e oiço o zumbido do computador que dorme. Mais uma vez estou a manuscrever o texto na folha imaculada para sentir o papel sob a mão e visualizar as letras, as palavras, as frases com que o vou sarrabiscando. Velhos hábitos que não se perdem e que vão ganhando novas dimensões com o decorrer dos anos.

Maria Teresa Portal

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