Reflorescer

“Oh mãe, se apanhas isto morres!”, gritou-lhe, um dia, a filha. Secas e rudes, as palavras surtiram efeito imediato: há mais de um ano que D. Maria não saía de casa. Culpa do “malvado vírus que para aí anda”, mas também do coração debilitado que cada vez mais lhe esmorecia as forças. Os únicos passos que arriscava fora de casa eram para travessar a estrada e ir despejar o lixo em frente à porta. As compras passaram a ser entregues pela junta de freguesia e os medicamentos pela senhora da farmácia.  As visitas da filha e das netas não passavam da janela e só as chamadas telefónicas diárias ajudavam a suportar o peso da clausura. Mas, naquele dia, tudo foi diferente…

D. Maria fazia 87 anos, tinha tomado a 2ª dose da vacina há um mês e a filha aceitou dar-lhe o “melhor presente”: sentar-se à mesa e almoçar com ela! Vestiu-se e penteou-se a rigor, pôs um colar no peito e uma sombra nos olhos. O rosto encheu-se de brilho e até o corpo cansado, que não acordara nos seus melhores dias, recuperou o fulgor. Comeu sôfrega e animada, brincou, cantou, apagou as velas e brindou com um cálice de Porto. “E agora, vamos até ao fim da rua!”, anunciou a filha no final do repasto.

O passeio não era longo, que as pernas há muito não aguentavam grandes caminhadas, mas D. Maria não hesitou. Calçou os ténis, colocou um lenço aos ombros e um chapéu na cabeça… e “vamos lá apanhar sol”!

De passos curtos e braço dado com a filha, foi descendo a rua. De vez em quando, parava para ganhar fôlego ou cumprimentar quem passava. Ao fim de uns 500 metros, chegaram finalmente aos terrenos baldios que circundavam os prédios (e que ela tão bem conhecia das memórias de infância). E, aí, novo festim: um imenso manto de flores brancas e amarelas – como há muito por ali não se via! – cobria o chão de cor… e parecia renovar o ar de esperança.

D. Maria fez questão de sentar-se uns minutos nos degraus de pedra a saborear o espetáculo. E ali ficou, deliciada, a apreciar a paisagem e a recordar histórias de outros tempos. No regresso, quis tirar fotografias e apanhar malmequeres. Há muito que a chegada da primavera não lhe sabia tão bem…

Helena Gatinho

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