A escrita na 1ª pessoa…de um passado já de outra época

Como é que escreves? Quando é que escreves?” perguntam-me com alguma frequência. Sinceramente, não sei. A Escrita é um ato tão natural, que nunca verdadeiramente tinha refletido sobre esse quando.

Contudo, um olhar para trás, para um passado onde se contam já dezenas de anos, trouxe-me algumas respostas. O bichinho da escrita já o tinha na escola primária. Lembro-me de que já nos primeiros anos de escolaridade, em Férias, as 15 cópias (uma por cada dia!) se transformavam em 50, 60 e mais. A este prazer de escrever aliava-se o de ler. Lia tudo quanto apanhava nas mãos, desde os livros de Banda Desenhada, passando pelos livros de Aventuras (Os Cinco, As Gémeas, Júlio Verne, Coleção para Raparigas e a Coleção para Rapazes, a Condessa de Ségur…) até ao lixo- quem não se lembra (os que são da minha idade!) daquelas coleções de livros de cowboys “Seis Balas”? E fala-se hoje nas telenovelas, nas séries televisivas, mas quem não se lembra das fotonovelas, as revistas favoritas das empregadas domésticas? E as novelas radiofónicas? Chorar com a “Simplesmente Maria” ou com bons autores cujas obras eram adaptadas para novela radiofónica e com os nossos atores emprestando a sua voz às diferentes personagens! E os folhetins nos jornais? Quem não se entusiasmava com a leitura dessas obras cujos capítulos se publicavam diariamente, gota a gota? De tudo li e a este “tudo” vieram juntar-se os nossos escritores e as leituras obrigatórias e não obrigatórias num ensino secundário! E, mais tarde, a literatura inglesa e a literatura alemã por imposição do curso. Mas o gosto de escrever continuou sempre, apenas se soltando em ocasiões de obrigatoriedade- nos trabalhos que envolviam toda uma tipologia de textos, sobressaindo nas redações com tema obrigatório ou tema livre.

Foi aos 20 anos que a necessidade imperiosa de escrever apareceu sob a forma poética (cujos textos ainda hoje se mantêm praticamente inéditos!) e assim se manteve por dois, três anos, a ela voltando esporadicamente quando a ocasião assim exigia, já que passei a entender-me melhor com a prosa, com a qual desabafava, com a qual partia para mundos só meus e que ia partilhando com os jovens e as crianças através do jornal escolar. Hoje já não é assim. A aposentação mudou as coisas.

Mas a entrada na vida ativa, no desempenho de uma profissão que exigia muita leitura e que obrigava uma pessoa a expor-se, a pôr-se em xeque quotidianamente é que foi o motorzinho de arranque.

E, por incrível que pareça, os primeiros textos surgiram não em Língua Portuguesa, mas em Língua Inglesa por necessidade, por não existirem, na altura, textos nem livros à disposição dos professores que pudessem ser utilizados para a exploração de determinadas funções comunicativas da linguagem ou para a exploração de certos conteúdos gramaticais. Os livros de então não tinham interesse e a maior parte dos textos era feita “a martelo” ou “por medida” se preferirem.

Mais tarde, a escrita surgiu como um desafio lançado à própria professora que eu era. Se propunha aos alunos um determinado tema para a produção de texto escrito, então a professora também o poderia fazer. E esta atividade partilhada tornou-se, ela também, habitual, um desafio que levei até acabar a carreira.

Porém, verdade verdadinha, as histórias começaram a nascer, ainda pequenas tentativas que timidamente nem à luz vinham, quando o primeiro filho nasceu. A necessidade obriga e aguça o engenho, mais precisamente porque essa criança detestava as histórias dos livros e queria histórias inventadas, cujas personagens tinham de ser invariavelmente carrinhos. Que pena tenho de nunca ter passado para o papel a história do carrinho vermelho, um delicioso carro de corrida, irmão de mais cinco carrinhos de plástico, um de cada cor e cada qual com a sua história! Nessa altura ainda andava tão longe das escritas! Mais tarde, tentei recuperar a história e escrevê-la, mas reconheço que o registo não chegava aos calcanhares da primeira que lá ficou ecoando no passado da infância do meu filho.

Logo a seguir, com o aparecimento do PEQUENO JORNALISTA surgiu a jornalista, redatora e principalmente cronista, sendo a crónica, porque género paraliterário, o tipo de texto jornalístico que mais adoro, onde “esgrimo” por vezes com as palavras e pratico um estilo incisivo e acutilante, (não só no jornal escolar, mas também na imprensa regional – Reflexo – e, exerci no Jornal Povo de Guimarães que desapareceu e na revista Elo do Centro de Formação, muito diferente do das histórias para crianças ou para outros maiores.

E a escrita acabou por se tornar num vício, uma fonte de prazer inesgotável, e, como todos os viciados, podia considerar-me “escritodependente”. Já não sabia andar sem bloco, onde sempre podia apontar ideias, escrevinhar notas, tomar apontamentos, ou, à falha deste, servia um envelope ou a conta do supermercado ou um qualquer papelito que andasse perdido na carteira… mas ligava sempre, sempre a escrita e o prazer que me dava ao próprio ato de escrever. Hoje, com o telemóvel, infelizmente, perdi esse hábito porque posso jogar, andar nas redes sociais ou passear na Internet.

E… se o suporte eletrónico é mais fácil de manobrar, mais universal, o suporte papel é mais fiável, mais seguro, mais arcaico, menos ambicioso porque mais caseiro, mas mais duradouro. Perdoem-me, mas o prazer de escrever advém para mim do papel e da esferográfica ou do marcador (lápis, nunca! que não corre!). Sei que há escritores que escrevem diretamente na máquina, no computador. Serão talvez os que têm essa profissão, são escritores. No meu caso, o gozo da escrita surge quando espero, quando não tenho “nada” para fazer ou quando não me apetece fazer “nada” do que tenha para fazer e a maior parte das vezes surge como um exercício para aliviar um período de grande stresse, de grande atividade intelectual e emocional. Nessas alturas, escrevo, mas tenho mesmo de escrever, de sentir as letras escorregarem da esferográfica ou do marcador para o branco do papel. É extremamente apaziguador e segue-se uma sensação única de grande calmaria. Muitas vezes nem sei bem o que escrevo. As ideias fluem e seguem a mancha de tinta que vai sujando o papel. Por incrível que possa parecer é também nestas ocasiões que o texto nasce por si, sem correções, sem necessidade de riscar o rascunho ou de procurar as palavras certas para a construção mais ou menos complexa da frase. Depois segue-se uma sensação de vazio, nem agradável nem desagradável, apenas necessária. E neste caso, a bonança antecede a tempestade, porque depois sim, a atividade surge e as coisas vão aparecendo a bom ritmo forçadas pela adrenalina.

Com as Novas Tecnologias, já tentei escrever utilizando o computador. Não dá. Talvez porque não confie nas máquinas (uma falha na luz e o texto pode ir para os ares e não há na maior parte dos casos uma cópia ainda, como já me aconteceu e “gato escaldado de água fria tem medo”), talvez porque não consiga criar empatia com elas (que são frias, impessoais), a verdade é que o fio narrativo se perde, fica bloqueado face àquele ecrã iluminado onde as letras se vão alinhando muito certinhas e sempre iguais. Tal batalhão não me convence. O teclar não tem uma ligação física terna como a estabelecida com a folha que acariciamos quando escrevemos e pela qual arrastamos mansamente a mão. É uma relação dual a que se estabelece com o papel. Também o jornal me transmite o mesmo sentimento. Talvez seja demasiado possessiva, mas a verdade é que para sentir que algo é meu, tenho necessidade de tocar, mais do que ver. Não me basta ver a página construída e saber que ela está no ficheiro ou na Internet. A sua consulta implica uma série de condicionantes que a distancia, que não a torna palpável.

Não sei se estou a transmitir o que sinto, mas a relação que eu estabeleço com o papel é única e, no entanto, nunca fui partidária da redação de um Diário. Apenas porque há verdades que nem ao papel se devem dizer. Não é só o Poeta que é “um fingidor”; o escritor também o é na medida em que cria e recria realidades, jogando com as palavras e com as personagens a quem dá vida, emprestando-lhe as suas experiências, as suas vivências… e dando-lhes as ideias e sentimentos que possam ter sido os seus algum dia ou até no próprio momento do ato criativo. Quem sabe?

E lá virá um dia alguém, com uns quantos conhecimentos de literatura rotular o escritor, inserindo-o numa determinada corrente literária, seguindo uma certa vertente filosófica… que vai encontrar nas linhas e entrelinhas do seu discurso tantos significados ocultos e tantas interpretações que, se o desgraçado do escritor pensasse nisso quando elaborasse e criasse a sua obra ou o pintor o seu quadro, certamente a fecharia a sete chaves ou lhe pegaria o fogo.

Não receio críticas nem interpretações de terceiros. Escrevo o que me apetece, quando me apetece, para ocupar o espírito que necessita de distração, de entretenimento, de ocupação… até para que outros problemas possam ser resolvidos e, porque, confesso, sou “escritodependente”.

Tornei-me viciada!!

Teresa Portal

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