A literatura é uma forma de encantar

“Tudo é poetável, desde o amor, passando pelo arroz de tomate, ou às ervilhas com ovos escalfados” disse a poetisa Ana Luísa Amaral, numa entrevista ao JN, em 2015.

É um facto. Dentro de um mesmo texto podem coabitar a ficção e a realidade, o concreto e o imaginário, a prosa e a poesia. Tudo depende da forma como o escritor escreve o que vê e o que sente. O escritor tem um olhar diferente e uma diferente forma de sentir. O escritor “não pode olhar para onde toda a gente está a olhar, mas para o outro lado.”, escreveu Gonçalo M. Tavares.

Através do olhar de um escritor, uma pessoa comum pode originar uma personagem fantástica; um acontecimento banal, ocorrido num dia banal, pode originar uma ação empolgante que deixa o leitor expectante com pressa de chegar à conclusão. E, se o fim for inesperado, melhor ainda, vai fazer com que o leitor estremeça, se questione, chore, ria, se revolte, se deixe enovelar em múltiplas emoções e, sobretudo, que fique inquieto e queira mais.

A literatura é isso mesmo, uma forma de encantar. É um olhar, um sentir com todos os sentidos e perspetivar a vida e o mundo de uma outra forma. Não a do ser humano comum que se cruza com a realidade, ficando, muitas vezes, indiferente ou, quando muito, impressionado durante alguns instantes passageiros, mas a do escritor que se cruza com a realidade e a reconta. À sua maneira, é certo, mas de forma a abanar consciências, a chamar a atenção, como se as palavras fossem gritos dados no silêncio das páginas. Porque o escritor tem essa obrigação (missão? poder?): desassossegar.

E foi isso que pretendi (passo a imodéstia) com os contos que fazem parte do meu último livro Os dias são assim. Com grande crueza, se denuncia o fim das coisas e das pessoas nos contos “Fim” ou “D. Cármen Garcia, a bruxa que odiava crianças”. Em “Um Porto de vários sabores“, “Vidas” e “O muro” há pedidos de socorro que não foram ouvidos porque a sociedade, surda e cega, parece fazer questão de ficar muda.

A literatura tem um poder enorme. Não o poder de mudar o mundo, pois, se assim fosse, talvez o mundo fosse perfeito. O seu poder consiste em provocar, revolucionar o pensamento, não deixar esquecer e proteger-nos da tirania e da estupidez através do conhecimento.

Não é por acaso que “Os governos suspeitam da literatura porque é uma força que lhes escapa.”, escreveu o escritor francês Emile Zola.

Ana Paula Oliveira

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