“O que cresce intimamente ninguém consegue tocar”.

“O que cresce intimamente ninguém consegue tocar”.

Sílvia Mota Lopes

Deixa-me escrever para que os lugares por onde caminho sejam menos insípidos.

A sala tem duas portadas para um pequeno jardim doméstico. Corro a pequena porta branca e a primeira frecha de luz é um pequeno apontamento para a vida. Ainda há uns anos aquela sala cobria-se de brinquedos e brincadeiras diversas, agora são prateleiras carregadas de histórias que nos levam embrenhados em prosas e versos.

Abro as persianas e vejo um pouco de verde no amarelado da relva. Alguns ramos sem folhas, folhas caídas, uma ou outra flor persistente caracterizam o lugar dos meus olhos. Não me demoro. Enterneço as fontes na tela em branco. Materializo as palavras do poema e procuro o poeta em cada esquina, na encruzilhada dos verbos e no respirar de cada sílaba. Essa procura faz-se através da cogitação dos sentidos e só termina quando se sente intuitivamente o remate da obra. Na magnitude dos traços, das cores e das formas, dá-se um outro sentido, uma outra linguagem que comunica com o sujeito que a contempla e a interpreta. Não é apenas um complemento do poema escrito é uma outra linguagem que se deseja descodificada.

É este o lugar que me agarra a pele, sacia a minha sede e tranquiliza esta mente um pouco bravia. Caminho por diversos idiomas, mas é neste lugar que me refugio da realidade muitas vezes nefasta e sombria.

Há quem nos deseje cortar as asas dificultando o voo. Há pedras por onde caminhamos. “Se o caminho por onde caminhas tem pedras é porque vais no bom caminho”. Disse-me recentemente um amigo na sua voz terna e paciente.

Quando pinto esqueço as pedras, até mesmo as asas, mergulho na profundidade das águas e nelas me fortaleço.

“Nenhum pássaro voa olhando para as suas asas”

Fabrício Carpinejar

Não necessito de aventuras e desventuras, de amores reais e/ou imaginários para me inspirar.

Há pessoas que nos inspiram através da sua arte, do que são, do seu caráter, da sua dádiva, da sua bondade e reciprocidade. São portadoras de ternura, de respeito e quando falam têm o dom de nos fazer sorrir e deixar saudades quando se ausentam. Não nos dizem apenas o que desejamos ouvir, não nos elogiam apenas, mas dizem-nos a verdade, corrigem os nossos erros, ajudam-nos a crescer e aconselham-nos para melhorarmos sempre no bom sentido.

Pessoas que nos ajudam sem outras intenções, sem interesses e benefícios próprios.

Essas pessoas são parecidas com anjos e são raras.

O tempo é o nosso maior tesouro e não o devemos desperdiçar com quem não o merece e não fez nada para o merecer.

A arte salva, a arte une. A arte é partilha e amor.

Um dia, não há muito tempo, disseram-me que nunca mais iria escrever ou pintar. Não tenho de provar nada a ninguém, nem é esse tipo de mote que me move, mas na verdade aconteceu algo extraordinário e cresceu tão naturalmente como quando escrevo ou pinto. A viagem pictórica que iniciei em agosto. Não faço arte para ganhar prémios, a pensar no reconhecimento futuro, para me vingar de quem quer que seja, apenas faço-o na urgência do presente, como uma terapia, uma espécie de salvamento, pinto para me curar, adiar a morte, para me sentir simplesmente realizada e feliz. Não há nada melhor do que fazermos o que mais gostamos, mesmo que não seja a tempo inteiro. Se o que faço também faz bem ao outro” tanto melhor.  Não sou apenas eu, sou “eu” e o “outro” somos dois, somos mais… somos muitos, somos unos. Se através da arte partilhada ficamos mais esclarecidos, mais conhecedores, mais deslumbrados é porque realmente vale a pena. É neste sentido que crio.

Não pratico a arte da hipocrisia” Van Gogh enaltece a sabedoria intrínseca do amor: “Todo aquele que trabalha com amor e inteligência encontra na própria sinceridade de seu amor pela natureza e pela arte uma espécie de armadura contra as opiniões das outras pessoas”.

Esta é a minha liberdade. Quem ousar cortar-me as asas, manipulando os meus gestos só me fará agitar mais as asas.

Não vou para longe, talvez não, mas vou por onde quero ir.

Não desistam dos vossos sonhos, pode levar meses, anos, mas o mais importante é que façam o que gostam. Sigam o vosso coração, o vosso instinto. Se algo é contra os vossos valores, a vossa ética, valorizem acima de tudo aquilo em que acreditam, mesmo que isso não vos leve ao patamar desejado, mesmo que o caminho seja mais difícil e doloroso. Haverá sempre alguém que valorizará o vosso trabalho e só por isso valerá a pena.

Sílvia Mota Lopes

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