Sem aviso prévio

“Respira, Susana, respira, respira e relaxa…” pensava, enquanto conduzia a caminho de casa depois de mais um dia de trabalho. Intenso, por sinal. Já conhecia de ginjeira estes sinais de alerta que aumentavam a ponto de ter de parar o carro, até conseguir recuperar a respiração. As longas horas em frente ao computador a verificar contas e a fazer a análise da faturação dos últimos três meses aceleraram o batimento cardíaco desta mulher quase a entrar nos cinquenta anos e que ainda não tinha aprendido a lidar com a ansiedade. Na verdade, ataques de pânico que iam e vinham sem aviso prévio. Pudera ela trocar as voltas à vida e ignorar os episódios que já somara ao longo das últimas três décadas. Tinha dias que o que mais desejava era subtrair problemas, em vez de os multiplicar, mas a vida era bem mais fácil no mundo dos números.


Desde que o marido tinha ido trabalhar para fora, que os assuntos da casa e a educação das duas filhas estavam por sua conta. Graças ao novo trabalho do marido, engenheiro numa grande empresa de construção, a estabilidade financeira não era problema. As filhas, gémeas, frequentavam o 1.º ano da faculdade, Medicina e Direito. Por sorte, tinham conseguido continuar a viver com a mãe. Além da poupança ao final do mês, o maior tesouro era mesmo a companhia. A Inês e a Beatriz desde pequenas que se habituaram a lidar com as crises da mãe. Desde que o marido, o Vasco, começou a fazer longas estadias fora que a ansiedade da Susana aumentava. O coração parecia sair da boca, as sensações de falta de ar e as náuseas eram o menos. O problema maior era quando a isto se juntava a sensação de desmaio. Ao longo da vida que a Susana se fora habituando a lidar com estes sintomas. Depois de anos à procura de um motivo, desistiu, aceitando esta realidade. Porém, os ataques tornaram-se mais frequentes nos últimos três anos e começavam a acontecer durante as viagens, pelo que o risco de um acidente de carro era cada vez maior.


Sem necessidade de trabalhar para fazer face às despesas, o marido incentivava-a a deixar o trabalho, as filhas exigiam, apesar da idade, ainda muita atenção e acompanhamento, mas a verdade é que Susana não se imaginava a deixar a sua atividade profissional. E agora, “teria chegado o momento de parar?”, pensou, ao meter a chave na porta de casa…mas a resposta ainda demoraria a chegar!

Andreia Abreu

[Os Dias de Maria]

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