Haverá um pássaro e uma árvore

Há muitas cidades, olhares tateando as ruas e jardins desenhados pelo estado do tempo.

Lembro-me das árvores carregadas de pássaros que rebentavam em cânticos.

Um dia, não me lembro quando, as árvores desapareceram, cortaram-nas ou esculpiram-nas noutro lugar. Nunca mais ouvi aquela tempestade de sons inigualáveis.  

Os pássaros gostavam daquelas árvores, tanto como eu.  Com elas partilhavam a vida, e ambos, pássaros e árvores, eram cúmplices dos meus passos, de cada bafo e saliva.

Conhecia bem aquele percurso. Fazia-o a pé ou de autocarro. Raramente andava de carro, os meus pais nunca tiveram um. Talvez seja essa a razão da espera. Não me lembro de perder nenhum autocarro. Tinha as horas contadas. Sempre esperei mais do que fiz esperar. Provavelmente esse ritual quotidiano formou esta peculiaridade da minha personalidade.

Ouço a chuva, aqui dentro também chove, mas somente eu ouço.

As memórias são como fragmentos.  Entram em ebulição no peito e sobem aos dedos.

É quase natal. Por mais que seja triste continua a entrar luz frestas pelas janelas.

 Lembro-me da sala em festa, da fotografia da família num álbum que não abro há algum tempo. Dos nossos olhares curiosos, das rabanadas em cima da mesa, dos pratos dos mexidos, das luzes a piscar encostadas às nossas pálpebras.

Do outro lado da porta, não sei.

Bordo-me de linhas verdes sem queixumes. Anoitece. Saio de casa logo de manhã sem dar tempo ao corpo de acordar.

Haverá um pássaro e uma árvore algures por onde passar.

Sílvia Mota Lopes

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