Conto ou microconto?


Com Eça de Queirós e Fialho de Almeida o conto deixou de ser um género secundário e passou a ter autonomia literária. O século XX viu nascer a obra de grandes cultores deste género que passou, então, a ter lugar de destaque.


Por definição, conto é uma narrativa de pequena extensão, mais curta do que o romance e a novela, com uma estrutura fechada; nela participa um reduzido número de personagens e, pela sua brevidade e concisão, é grande a concentração espácio-temporal. “No conto tudo precisa ser apontado num risco leve e sóbrio: das figuras deve-se ver apenas a linha flagrante e definidora que revela e fixa uma personalidade; dos sentimentos apenas o que caiba num olhar, ou numa dessas palavras que escapa dos lábios e traz todo o ser; da paisagem somente os longes, numa cor unida.” (Queirós, s.d.)


Neste início do século XXI, o microconto tem sido uma tendência e adquirido diversas formas, sobretudo após o movimento modernista. Deixa de lado a estrutura fixa narrativa e privilegia a liberdade criativa dos escritores. Sendo uma narrativa minimalista, consiste em exprimir uma ideia em poucas palavras, dizer tanto, em tão pouco, o que constitui algo complexo porque exige poder de síntese, precisão, subtileza e expressividade.


E como é escrever microcontos com 77 palavras exatas?


Microescrever em 77 palavras é uma corrida ao dicionário na procura incessante de palavras e de sinónimos, para tornar compreensível e expressiva a ideia que se quer transmitir (de preferência uma boa ideia!!!). É contenção de palavras, pelo que é preciso saber onde cortar para o texto não perder qualidade e para que a boa ideia não se esfume. É uma luta com a sintaxe. É um jogo com a semântica. É uma busca de sonoridades e uma brincadeira com o ritmo das frases o que transforma o texto, não raras vezes, num trecho musical e/ou poético.


O projeto microcontos em 77 palavras exatas é da autoria da escritora Margarida Fonseca Santos. Surgiu, inicialmente, na revista Pais & Filhos e, em 2011, saltou para a blogosfera e mora no blogue http://77palavras.blogspot.pt onde são publicados todos os microcontos, enviados por email, de todos os que queiram participar, seja qual for a idade ou a nacionalidade. Segundo esta autora, aquilo que parece loucura é pura diversão, pois, e citando-a, “A magia das histórias curtas prende-se sobretudo com o equilíbrio entre aquilo que se quer contar e aquilo que se permite ao leitor adivinhar em cada frase. (…) Porquê 77? A resposta é bastante simples: o número é, em si, divertido. O resultado é surpreendente. Conseguimos aproximar-nos mais da essência do texto, daquilo que é verdadeiramente importante contar, aproximamo-nos mais da prosa poética ou da humorística, aproximamo-nos mais do ritmo do texto. E fica tão equilibrado!”


Os desafios de escrita, lançados no blogue, são uma provocação. E, quando os participantes devem explicar, em 77 palavras, por que motivo escrevem microcontos, terminando com a expressão “e foi por isso que me escrevi.”, o desafio aumenta. Colaborando com este projeto, desde o início, e do qual resultou o meu livro Em poucas palavras, foi assim que expliquei, em tão poucas palavras, o tanto que é escrever e fazer com que os alunos escrevam:

“Fazer soltar palavras adormecidas é tarefa de herói. Eles mostram-se renitentes, escusam-se a usá-las pois são muito novos, inexperientes. Primeiro, têm de encontrar as palavras certas na densa floresta onde habitam. Depois, têm de aprender a acariciá-las e beijá-las (como príncipe que desperta a Bela Adormecida), devagarinho, para não estremunharem nem estranharem sair do sono profundo. Foi assim que tudo começou. Ensinar os jovens a escrever. Provocar. Insistir. Não desistir. E foi por isso que me escrevi.”

E, sim, há imensos alunos a escrever em 77 palavras, o que não é tarefa fácil fazê-lo em horário curricular. Quando um professor quer que as crianças e jovens escrevam textos breves, um novo desafio surge e tem de ser enfrentado. O programa de português prevê que os alunos adquiram competências de escrita de várias tipologias textuais, mas não contempla a escrita de micronarrativas; nas provas de avaliação, é pedido aos alunos um limite mínimo de palavras que ultrapassa, em muito, as 77. Como contornar, então, esta situação?


Por um lado, é fundamental desafiar os alunos a escreverem, de forma recreativa e autónoma, e acompanhá-los em atividade extracurricular (clubes de escrita, por exemplo). Por outro lado, a biblioteca escolar pode ser parceira da aula de português e promover oficinas de escrita que estimulem a criatividade e a vontade de escrever.


É importante que os jovens tenham a noção clara que escrever implica trabalho e persistência para se chegar a um resultado. A intervenção do professor, como impulsionador, torna-se, então, imprescindível, provando-lhes que, por vezes, basta uma palavra, uma frase, que, bem trabalhadas, fazem o texto surgir. Trata-se, apenas, de “uma ajudinha” para que os alunos possam agarrar as palavras e soltar a poesia que há dentro de cada um, pois, “Têm fios invisíveis/As palavras no ar/Eu dou-te uma ajudinha/Só tens que te esticar.”


Obras Citadas
Guedes, Teresa. (2002). Ensinar a poesia. Porto: Asa.
Oliveira, Ana Paula (2015). Obtido de http://livro-leitor.blogspot.pt/2015/11/por-isso-me-escrevi.html
Queirós, Eça de (s.d.). Notas contemporâneas. Obtido de http://www.citador.pt/frases/citacoes/t/conto
Santos, Margarida Fonseca (2011). Obtido de: http://77palavras.blogspot.pt/2011/11/como-tudo-comecou.html
Santos, Margarida Fonseca (2011). Obtido de: http://77palavras.blogspot.pt/2011/11/komeksefaz.html

Ana Paula Oliveira
Dezembro 2020

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