muitas formas de escrever e Ler!

Abri um livro que repousa há alguns dias na minha secretária.

Numa das páginas leio “Tenho crises de ternura que me dão vontade de chorar”. Sully Prudhomme no seu diário íntimo e pensamentos, diz que, apesar de ter as pálpebras inchadas, não existe sequer uma lágrima. Acontece. Tal como acontece no amor que para ele é assunto de poesia. Aconteceu-lhe, por várias vezes, ligar-se a uma mulher por três ou quatro dias, de passeios, conversas enternecidas e depois dizer-lhe que vai fazer uma viagem, uma grande viagem e escreve assim o seu fim. 

Avanço mais uma página e leio “Há dois eus, um dos quais é sempre melhor ou pior do que o outro” e afirma que não existe consciência sem esse dualismo, concordo plenamente, mas não vou mastigar sobre o assunto.  Dá malha para muitas camisolas.

À medida que folheamos mais uma página encontramos pensamentos pertinentes, tal como este em que diz “O Homem tem um dos pés na terra e com o outro procura, tateando, o degrau seguinte, situado no infinito. É a isso que chamamos aspirar”.  

Há muitas formas de escrever, ou transmitir uma ideia, tal como outro autor, (infelizmente também não faz parte do mundo dos vivos) em que diz que a utopia está lá no horizonte e é ela, a utopia, que o faz caminhar, pois, por mais que caminhe, jamais a alcançará. A utopia serve para isso mesmo, para que não se deixe de caminhar.  Não basta limitarmo-nos à existência. É necessário sonhar. Parar de sonhar é deixar morrer o pássaro que vive dentro de cada um de nós. Quando deixamos de sonhar, de perder a capacidade de nos amar, de lutar pela nossa e pela felicidade do “outro” inauguramos o envelhecimento e antevemos uma morte precoce.

Foco o meu olhar sobre um outro parágrafo e desta vez é sobre a amizade. O poeta parnasiano diz que as amizades antigas são como as raízes deixadas pelo inverno, e mais adiante leio estas palavras que me deixam enternecida “Nada mais doce conheço no mundo do que a conversa de um amigo sobre assuntos tristes.”  A isto chama-lhe uma afeição verdadeira. 

Os amigos até podem variar em tudo, mas têm de se parecer nos sentimentos. Quando isto não acontece, haverá amizade? 

Também leio a seguir, “Há uma medida infalível para as afeições: o tempo que lhes consagramos”.

 Há um provérbio africano que ilustra bem essa imagem,

“A Amizade é um caminho de areia que desaparece se não o percorrermos frequentemente”.

“O tempo foge, atraso-me” …leio. O que acontece quando nos atrasamos?

Também as memórias, se não forem percorridas frequentemente, acabam por dissipar-se em devaneios e céus distantes.

Por isso, escrevo-as. Devolvo-as à vida. As memórias devem ser materializadas para que a melancolia ressalte numa paisagem bucólica ou num punhado de nuvens.

Há uma vontade súbita de chorar. O sono quando não chega. O tempo que não consagramos à afeição.

Espero não me ter atrasado muito e que ainda valha a pena voltar ao tempo de ver crescer o milho e esperar pacientemente pela sua colheita. De não ter de agarrar os olhos com as mãos para ver o verde dos campos e o curso de um rio. De nos deleitarmos a ver um caracol ou uma lagartixa estendida ao sol quando estamos sentados num degrau de uma escada. Ter o privilégio de nada dizer ou fazer e contemplar as singularidades da vida.

Não prestamos a devida atenção a uma árvore que nasce e cresce naturalmente, mas damos demasiada importância a um pilar que se atravessa no nosso caminho.

Sílvia Mota Lopes

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