Viva o outono!

No recreio os plátanos são reis e quando o vento chega solta-lhes as coroas.

Estava muito vento nesse dia. Após o almoço e sempre que o tempo permite, as crianças do Jardim de infância vão para o exterior brincar.

Escutei o vento sussurrar-me ao ouvido. Confessou-me que pretendia oferecer uma tarde diferente às crianças. Tencionava que eu mesma testemunhasse esse momento.

Sentei-me no degrau da escada. De súbito veio uma chuva de folhas e com ela as gargalhadas das crianças. O chão ficou coberto de folhas. As crianças começaram a aglomerar-se naquele manto malhado de vermelho, castanho e amarelo.  Levantavam os braços contagiadas de alegria e em uníssono gritavam: Neve! Neve! Neve!

Rebolavam, atiravam folhas ao ar, atiravam folhas umas às outras tal como se faz com a neve.

O vento é sábio. Sabe que o excesso de fúria não traz felicidade. Quis oferecer-nos um momento único e especial. Eu mesma brinquei com elas e gritei: Viva o outono! Viva o outono! As crianças atiravam-me folhas para o rosto e recapitulavam: Viva o outono! Viva o outono!

Quando o vento se despediu, pois nada dura para sempre, agradeci-lhe em silêncio por nos ter proporcionado instantes de imensurável Felicidade.

 Felicidade é movimento. Neste caso, ar em movimento.

Foi o melhor dia no Jardim de infância. Senti, sentimos todos e não foi preciso declará-lo.

Imagino se o manto de folhas se transformasse em neve, seria com certeza outro momento de pura felicidade.

Não importa por quanto tempo somos felizes, o que importa mesmo é viver intensamente esses momentos e se um dia triste chegar, conseguiremos agarrar-nos aos momentos bons que vivenciamos. Os momentos são eternos.  Pernoitam  para sempre na nossa memória.

E quando chove?

Nos interregnos do vento,

as vozes vibram nas folhas vermelhas dos plátanos.

quando olho o céu,

sinto uma estrada de nuvens que se prende ao cabelo.

Não há pássaros em redor dos meus olhos,

somente as mãos infantis que se ofertam à terra.

Vasculham veleiros e conchas

emergindo das poças

oceanos.

Os versos florescem no silêncio

intactos no solo

velando um sol submerso.

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