Afeto sem preço

O regresso à escola foi estranho para a professora Ana. Um misto de alegria e medo, à mistura com muitas cautelas e interrogações. Era bom rever os seus meninos e meninas (logo no 1º ano privados da professora três meses) e, sobretudo, reconfortante a sensação do retorno a uma (aparente) normalidade. Mas os receios eram muitos, empolados por divisórias, “bolhas” e regras para precaver a transmissão do diabólico bicho.

Ana acatou tudo com compreensão e resignação: as novas direções de circulação nos corredores, as filas por ordem alfabética, os locais de recolha e entrega dos alunos, a porta e a janela da sala abertas, a limpeza das mesas e a desinfeção das mãos, a distância (possível) entre as crianças, a proibição de troca de secretária, cadeira ou qualquer outro tipo de material escolar. Normas que também os mais pequenos adotaram, de modo mais ou menos rigoroso, com algumas perguntas mas sem grandes rejeições. 

Implacável, a professora fazia questão de cumprir escrupulosamente as regras com os 25 alunos que tinha a cargo. Proibiu-os mesmo de se levantarem da cadeira salvo indicação em contrário e de trazerem de casa o que quer que fosse, chegou a recuar discretamente quando um ou outro tentava um contacto mais próximo. É verdade que quando os via aos segredos, abraços e empurrões no recreio todos aqueles cuidados lhe pareciam inúteis, mas nem assim vacilava. Mesmo sem jeito, negou-se a responder a alguns pedidos de ajuda: recusou-se a ver o brinquedo do Rafael, a apertar os atacadores do João, a abotoar a camisa da Madalena e a abrir o iogurte do Filipe. Ao mesmo tempo, tentava, ainda que a custo, refrear dentro da aula aproximações, toques e conversas entre eles.

Até que um dia, a doce Carlota começou a chorar. Primeiro em silêncio, depois em soluços cadenciados abafados pelas mãos. Assustada, a professora Ana olha para a menina, sempre silenciosa e discreta, e pergunta: “O que foi Carlota? Por que estás a chorar?”. A menina levanta o rosto choroso e, de imediato, é rodeada por meia dúzia de colegas que querem saber a razão de tamanha aflição. “O que foi?”, perguntam, também eles intrigados com o pranto da colega. As amigas abraçam-na e uma delas faz questão de lhe dar uma carícia prolongada no rosto molhado. Pela primeira vez naquele mês, a professora Ana é incapaz de ordenar distância.

A razão da tristeza era, afinal, de pouca importância: o colega do lado escolhera o mesmo texto que ela (tanto) queria ler à turma. “Não faz mal, lemos os dois”, diz-lhe o Bernardo, envergonhado, braços já enrolados no pescoço da Carlota. A professora, enternecida, não consegue dizer nada. E também ela quebra as regras para acudir à menina. Porque há descuidos que não têm preço…

Helena Gatinho

Leave a Reply

RECEBE NOTÍCIAS D'A CASA DO JOÃO!

Obrigado por te juntares à Tribo!

Algo está errado! Tenta de novo, por favor!

A Casa do João will use the information you provide on this form to be in touch with you and to provide updates and marketing.
%d bloggers like this: