Sorrir com os olhos

Se há uma lição que o COVID nos trouxe, atrevo-me a pensar que praticamente a todos nós – homens, mulheres, adultos, idosos, jovens e crianças – foi a imprevisibilidade da vida e a nossa incrível capacidade de adaptação à mudança.

De repente percebemos que os nossos planos podem “cair por água abaixo” de um momento para o outro e que está fora do nosso controlo garantirmos a sua concretização. Percebemos que temos de encontrar outras formas de trabalhar, de comunicar, e até de mostrar carinho pelo outro, porque os beijos e os abraços estão proibidos (pelo menos, fora das nossas casas).

E nós, escritores e/ou contadores de histórias, também tivemos de encontrar outras formas de contar as nossas histórias. As salas cheias de crianças entusiasmadas a rodearem-nos e a abraçarem-nos estão também suspensas.

Temos de nos reinventar!

Podemos contar histórias atrás de uma câmara, em direto ou por gravação, procurando ultrapassar o desafio de não conseguirmos perceber a reação das crianças que nos escutam. E podemos ficar espantados com o feedback que recebemos de professores, educadores, pais e crianças, concluindo que, afinal, parece ser mais natural para os nossos escutadores verem-nos a contar uma história através de um vídeo, do que é para nós contar nesse formato.

Podemos descobrir que mesmo quando contamos uma história por gravação, é possível ser criativo e conseguir criar dinâmicas de interação – ainda que assíncronas – com as crianças que nos veem e nos ouvem… E, mais uma vez, podemos ficar surpreendidos, porque resultam mesmo: as crianças respondem às nossas interpelações, como se nos estivessem a ver à sua frente, presencialmente, olhos nos olhos.

Ou então podemos contar uma história atrás de uma máscara e neste caso temos de enfrentar dois grandes desafios: o primeiro, o de garantir uma excelente dicção, visto que não teremos a leitura dos nossos lábios para ajudar os escutadores a compreenderem o que dizemos;  e o segundo, o desafio de SORRIR COM OS OLHOS!

Será que os nossos olhos sabem sorrir? Será que o brilho do nosso olhar é diferente quando os nossos lábios sorriem por detrás da máscara? Será que as crianças, e os adultos, sabem “ler” o sorriso dos nossos olhos?

Na verdade, não são apenas os contadores de histórias que têm de saber sorrir com os olhos… são os professores, os educadores, os médicos e os enfermeiros, todos aqueles que lidam com clientes nos restaurantes, nas lojas ou nas caixas de supermercado… São as crianças e os adolescentes, pelo me nos a partir do segundo ciclo, que tem de brincar, aprender, e até de namoriscar, com uma máscara no rosto. Subitamente, temos todos de desenvolver a competência de sorrir com os olhos!

Lembro-me de uma vez ter ouvido, suponho que foi numa ação de formação comportamental, que as pessoas que fazem atendimento de clientes, por telefone, devem sorrir quando falam, ainda que não se veja o seu sorriso… porque supostamente se nota na sua voz que está a sorrir. 

Por isso acredito que também se notará nos nossos olhos que, por trás da máscara que usamos, estamos a sorrir. E vou mais longe! Acredito que, se sorrirmos também com o nosso coração, seja a contar uma história, seja em tudo o que fazemos com amor, não há máscara no mundo que possa esconder esse sorriso!

Vamos continuar a sorrir, e a fazer sorrir, com as nossas histórias?

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