O simples prazer de ter andado à chuva

Há muito tempo não caminhava pelas ruas da cidade.

Acordei cedo, como sempre. Aos sábados de manhã tenho o hábito de ir ao centro da cidade comprar telas. Faltam quatro pinturas. São quinze ao todo para realizar uma exposição em homenagem à poesia e aos poetas. Para não andar como uma barata tonta atrás de estacionamento, fui para o parque de estacionamento mais próximo. Conheço bem a sua descida e o frasco vermelho do desinfetante. Não reparei no aviso afixado em cima, normalmente só elevo a cabeça para olhar para o céu. O funcionário veio ter comigo, não para retirar o carro dali, mas para o chegar mais à frente. Muito antes de mo ter dito, olhei subitamente para cima, vi o aviso, adiantei-me e pedi desculpa por ter estacionado num lugar destinado a grávidas e a pessoas com deficiência. Ele sorriu quando lhe disse que tinha três filhos e bastava. Já não tenho idade para engravidar, só se for de felicidade.

Vi um rasgo de céu cinzento quando subi o último degrau da escada. Chovia. Não levei guarda-chuva. Em pequena gostava de andar à chuva e de saltar para dentro das poças. Tinha umas galochas para o efeito com um padrão às flores miudinhas muito coloridas.

Hoje, com cinquenta anos, ainda guardo na chuva essas memórias e gosto de senti-las. Apertei o kispo, pus o carapuço na cabeça, a mochila no dorso e dirigi-me à loja. A porta estava fechada e avisava os clientes que a abertura era às 10 horas. Já calculava. Podia ter ficado em casa mais um pouco a fazer mimos aos gatos.

Fui dar uma volta. Só se viam guarda-chuvas e máscaras na rua. Fui em direção à livraria Centésima Página, mas reparei que estava fechada. Se estivesse aberta, o mais certo era sair de lá com um livro colado às mãos.

De vez em quando olhava para uma ou outra montra de roupa e suspirava. Gosto de vestir o corpo, mas prefiro vestir-me de erudição. Tenho dois casos amorosos com duas livrarias. São os meus únicos casos de amor. A Livraria “Centésima Página” e a “Era uma Vez Livraria”. Estas duas livrarias, como tantas outras precisam de leitores para sobreviverem. A arte e os artistas precisam de nós e nós deles.

Quando voltei à loja do material de pintura, vi que a porta já estava aberta. Cumprimentei o dono e perguntei se podia entrar. Comprei as duas telas e um tubo de tinta azul petróleo. Voltei a casa com um sorriso impresso por trás da máscara. Um sorriso, por ter a possibilidade de criar arte através da poesia durante mais dois dias e também quiçá, pelo simples prazer de ter andado à chuva.

Sílvia Mota Lopes

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