O cuco maluco e a coruja maruja

O cuco andava intrigado. Bem, era um cuco fêmea, por isso falemos no feminino. Andava intrigada porque, como sempre fora hábito na época da primavera, andava por ali a cantar enquanto procurava um ninho de alguma outra futura mãe distraída para largar o seu ovo. É que os cucos são preguiçosos para construir os seus próprios ninhos e usam os de outros pássaros.

E enquanto procurava, de vez em quando chegava-lhe aos ouvidos um canto parecido ao seu que parecia vir de uma casa.

Aproximou-se sorrateiramente e qual não foi o seu espanto quando ouviu que de uma engenhoca numa sala, de tempos em tempos, abriam-se umas portas e surgia um boneco parecido com um cuco lá se punha a cantar “cucu-cucu”!

Mas… o que vem a ser isto? O cuco fêmea resolveu testar a engenhoca. Quando ouvia o “cucu-cucu” repetia a mesma cantilena, a ver se obtinha resposta. Nada. Esperava, repetia-se a cena toda… nada. Do seu pouso, viu dois humanos a olhar para a engenhoca, a mexer nela… será que aquilo era algum brinquedo para adultos?

Estava na altura de procurar a sabedora coruja para ver se conseguia algum esclarecimento. Foi descobrir uma, perto do mar, a devorar um peixe.

– Dona coruja… cucu, por favor, dá-me a honra de me responder a uma curiosidade?

– Agora que estou saciada e até de bom humor, vamos lá a ver no que te posso ajudar.

Contou-lhe a história da engenhoca, do canto que de lá saía e de como o havia repetido até quase ficar rouca, para ver se tinha alguma resposta.

– Oh, cuco maluco! O que viste foi um relógio e…

– Um quê?

– Não me interrompas ou não vou gastar as energias do meu jantar com explicações.

– Desculpe, vossa senhoria da sabedoria, Dona coruja…

– Coruja maruja – apresentou-se, toda emproada. – Pois um relógio é assim uma invenção dos humanos para saberem o tempo.

– O tempo? Pois ou está sol ou chuva, frio ou calor, noite ou dia – tentou mostrar que tinha também alguns conhecimentos.

– Cuco maluco! O tempo dos humanos é mais do que isso, divide-se em anos, meses, semanas, dias, horas, minutos e segundos.

– Que complicação! E para que é isso tudo?

– Ora, eles têm sempre muitas coisas para fazerem, têm de se organizar e no fim não têm tempo para nada!

– E quem inventou relógios com cucos? Que triste imagem para a minha espécie!

– Pois fica sabendo que foram os alemães da Floresta Negra. E devias sentir-te honrado, esses relógios são muito caros, são peças preciosas! E tu, cuco maluco, com a tua doidice deves ter deixado os donos da casa a pensar que o relógio estava avariado!

– Pronto, pronto, nem quero pensar mais nisso, é muito complicado para a minha cabeça. Já me sinto contente por anunciar a primavera. Então com sua licença, dona coruja maruja… ah, desculpe, já conheci muitas corujas, mas maruja porquê?

– Porque, apesar de ter roedores e insectos para comer em abundância, o meu alimento preferido são os peixes. E agora vai, que não te devo explicações da minha vida!

– Cu-cu, dona coruja maruja! – Já se ia despedindo.

– Espera lá, ainda tenho uma coisa para te contar.

– Concerteza, digníssima coruja maruja.

– Dá-te mesmo por feliz com esta história dos relógios e transmite a mensagem aos da tua espécie. Com a minha fizeram coisas piores…

– Nem consigo imaginar… as corujas são tão admiradas!

– A admiração nem sempre dá bons resultados. Num país chamado Indonésia, punham as nossas penas em travesseiros para sossegar as crianças! E noutros lugares levavam-nos para casas como animais de estimação ou para jardins zoológicos, presas uma vida inteira para satisfação dos humanos… – quase fugia uma lágrima à coruja maruja.

– Não chore, dona coruja…

– Eu, chorar? Não vês que é da água do mar?

– Desculpe, desculpe! Vou contar o que me disse aos meus amigos e, sempre que soubermos de uma coruja presa, faremos tamanha algazarra com o nosso canto que até deixamos esses humanos com os ouvidos doentes!

– Agradeço a vossa presteza e agora vai mesmo que eu vou repor as energias com outro belo peixe!

– Bom apetite! Cucu!

Sandra Estêvão Rodrigues

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