Viver um dia de cada vez

Quando vi pela primeira vez a sala do Jardim de infância com as mesas em fila e as cadeiras espaçadas, emocionei-me, não contive as lágrimas.  Aos poucos fui digerindo a realidade.  Temos de nos adaptar, arranjar novas formas de ajustamento.  Tenho o privilégio de trabalhar num agrupamento de escolas fantástico, num Jardim de Infância igualmente fantástico, com pessoas que nos motivam e nos fazem acordar de manhã com a energia necessária para enfrentar mais um dia.

Esta mudança de horários e rotinas no início do ano letivo não é fácil para ninguém, ainda para mais com esta pandemia.  Chego a casa cansada, percorro uns 30 quilómetros, há quem percorra mais, eu sei.  Também há quem ande com a casa às costas.

 Gosto de conduzir. Quando vou sozinha a conduzir sou toda eu com os meus pensamentos, alguns em voz alta. De vez em quando, os dedos mudam a estação de rádio. Enjoa estar sempre a ouvir a mesma coisa. Às vezes, um ou outro locutor faz-me rir.  Acordo muito cedo, cedo demais, confesso, mas adoro. Não gosto de ficar na cama acordada, para mim é um desperdício de tempo.  Vou nas calmas e quando passo a ponte ainda olho de esguio para o rio com vontade de fotografar a sua beleza. Passo pela rotunda do emigrante e olho para a escultura que o representa. No rosto tem uma máscara cirúrgica e em cima da mala um frasco de álcool. A primeira vez que a vi foi um misto de emoções, mas a primeira reação foi sorrir, só depois veio um turbilhão de coisas ao pensamento.  

 A confeitaria Lopes fica a caminho de Ponte de Lima, antes da rotunda dos corvos. Não o faço todos os dias, mas é bom sentar-me e saborear as delícias que eles mesmos confecionam.  É uma tentação!

Quando chego ao Jardim de Infância continua a ser cedo.  Coloco a máscara, cumprimento quem lá está, desinfeto as mãos, troco de sapatos, ligo o computador e vou adiantando trabalho.

Privilegiamos o espaço exterior, quando não chove é uma festa, mas quando chove é uma festa também. A prioridade é a segurança e o bem-estar das crianças. Só queremos que estejam bem e felizes.

 Os dias têm asas. Quando dou por ela é hora de voltar para casa.

  A nostalgia e o receio que inicialmente se apoderaram de mim, começaram a dissipar-se dia para dia. Devemos ter as precauções necessárias, fazer a higienização e desinfeção, cumprir ao máximo o plano de contingência, mas a vida continua. Nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Somente quem está no terreno sabe o quanto é difícil, principalmente com crianças pequenas.  É inevitável certas coisas, como só as coisas dos afetos sabem.

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