A menina que comia areia

Conheci uma menina, quando eu própria era menina, chamada Ana, que gostava de comer areia. Isso mesmo, areia! Não eram aqueles bolos deliciosos a que chamamos bolinhos de areia, desses gostava eu. A Ana gostava mesmo era da areia da praia. Apanhava um bocadinho entre dois dedos e metia-o à boca, ou então punha um punhado na palma da mão, pegava nuns grãos entre o polegar e o indicador e saboreava como se fosse um petisco. Os pais, quando a viam fazer aquilo, repreendiam-na: – olha que isso te faz mal! Tem micróbios e sabe-se lá que mais! Ainda ficas doente por comeres areia!

A Ana parecia concordar mas, mal os via distraídos, lá comia mais um bocadinho. A mim aquilo causava-me nojo mas, quando via a cara de satisfação dela, pensava que havia quem tivesse gostos muito estranhos. Quando lhe perguntei que satisfação lhe dava comer areia, explicou-me que não era tanto o comer mas o saborear aquele gosto a calcário. Nunca provei calcário, de modo que fico pelos bolinhos de areia, não sei se já provaram. São redondos, parecidos no aspecto a meia laranja pequena. Desfazem-se com muita facilidade, por isso temos que pôr a mão por baixo deles enquanto comemos ou lá se vai boa parte do bolo. Não sei, e será melhor nem saber, a quantidade de manteiga e açúcar que levam, até porque hoje em dia é muito raro encontrar algum tão delicioso como os que comprava na minha infância.

Na verdade, a Ana nunca ficou doente por causa da areia, mas agora admite que ter o esmalte dos dentes um pouco desgastado possa vir dessa prática. Sim, ela sempre continuou a saborear areia. Quando esteve grávida pela primeira vez, estavam a dragar o rio Eta, que fica onde ela morava, Na Fuzeta, desde há alguns anos já nomeada vila, do concelho de Olhão, que deve o seu nome, diz-se, a “foz do Eta”. Contava eu que estavam a dragar o rio para que os barcos pudessem atravessá-lo para a praia da ilha da Armona, para onde iam mais os turistas, já que do lado de cá do rio ficava a praia dos tesos, assim chamada por ser frequentada pelos que não podiam, ou não queriam, pagar o barco. E lá me desviei do assunto… Pois quando estavam a amontoar a areia e a Ana se encontrava grávida, ela viu aquela areia toda e ficou com tantas ânsias de a comer, que pediu ao pai para lhe ir buscar um bocadinho! E como a grávidas não se negam desejos…

Hoje em dia há mais turistas na dita praia dos tesos porque o rio não tem correntes, é quase uma piscina, enquanto na praia da Armona o mar pode ser mais perigoso e imprevisível. Além de que no mar há peixes-aranha que picam e causam uma dor muito grande. No mar apanham-se conquilhas, muito apreciadas no Algarve, mas no rio há amêijoas, lingueirões e outros moluscos igualmente apreciados.

Seja como for, a Ana, mesmo apreciando os moluscos, tem assim aquela “queda” pela areia, quer a mais grossa da praia junto ao rio, quer a mais fina das praias junto ao mar.

Anos mais tarde, ela e a família foram viver para Angola. Ficou fascinada com toda aquela terra vermelha mas diz que não é que lhe desperte apetites de a comer e sim de tocá-la, senti-la nas mãos.

Não acreditam que a Ana comia e come areia? Podem acreditar: ela é minha comadre!

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