SMAL – SETEMBRO, MÊS DA ALFABETIZAÇÃO E DAS LITERACIAS

Quando, em pleno século XXI, num supermercado, uma senhora pede ajuda para pesar a fruta porque não sabe ler, alguma coisa vai mal.

Quando, em pleno século XXI, um aluno pergunta, numa aula, por que motivo os alunos são obrigados a frequentar a escola durante tanto tempo, alguma coisa vai mal.

Quando a escolaridade é obrigatória por lei e os jovens têm-na como um dever e não como um direito, alguma coisa vai muito mal.

Por estas e outras razões, a Associação Portuguesa de Educação e Formação de Adultos – APEFA -, em parceria com a Associação Nacional de Municípios Portugueses e com o Alto Patrocínio da Presidência da República, dinamiza, pelo terceiro ano consecutivo, a Iniciativa Nacional de Educação e Formação de Adultos, Setembro Mês da Alfabetização e das Literacias (SMAL).

Por estas e outras razões, o combate ao analfabetismo e à iliteracia dos adultos é um dos objetivos da Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável.

Assim, durante o mês de setembro, várias sessões de sensibilização para a questão civilizacional da alfabetização e da literacia de adultos serão desenvolvidas envolvendo instituições locais e nacionais e o dia 8 de setembro foi instituído pela UNESCO como o Dia Internacional da Literacia.

Pode ler-se na página da APEFA (Associação Portuguesa de Educação e Formação de Adultos):

“Hoje, ainda, mais de meio milhão de portugueses não sabem ler nem escrever. E mais de 2,5 milhões tem apenas a escolaridade básica do 4º ano, o 1º ciclo, portanto.

Este quadro frágil de débeis literacias básicas da população adulta, e cujo combate a todos cabe empreender, exige, de toda a comunidade portuguesa, envolvência e ação, promotoras de Aprendizagem ao Longo da Vida, como vetor determinante de capacitação das pessoas e dos territórios, e, por conseguinte, de desenvolvimento económico e social.”

Muitas serão as formas de combater esta fragilidade social. Pessoalmente, considero que a literatura pode assumir formas de crítica à realidade e de denúncia pelo que o meu primeiro livro publicado (em 2009), intitulado Do cinzento ao azul celeste, aborda esta questão pois nasceu como resposta à pergunta de um aluno: “Por que raio temos de andar tanto tempo na escola?”.

Não ficando indiferente à pergunta, a estória criada no seu seguimento serviu como paliativo da dor que ela me provocou. E, neste livro infantojuvenil, tento mostrar aos mais novos, que nasceram num tempo livre, com acesso gratuito à educação e que não viveram numa época de analfabetismo (só quem podia pagar os estudos continuava na escola) que a aprendizagem, a literacia, o saber como arma os tornam cidadãos verdadeiramente livres, conscientes das decisões que tomam, capazes de pensar pela própria cabeça, e não pela cabeça dos outros, e de terem ideias criativas e originais.

Duas pequenas passagens deste meu livro, que passo a transcrever, ilustram o quanto a situação se alterou, após o 25 de abril de 1974, embora ainda haja muito para fazer:

“- Era uma vez o país do silêncio. Era uma vez um povo infeliz. Um país mergulhado na ignorância e no analfabetismo. Um povo proibido de pronunciar certas palavras, destruídas por um lápis azul para não serem usadas: democracia, socialismo, liberdade…

Muitos meninos e meninas queriam ir à escola, mas só alguns tinham esse privilégio. O país era pobre e era preciso trabalhar. Estudar era um luxo a que poucos tinham acesso. Os braços dos meninos e meninas pobres eram precisos para trabalhos duros e não tinham tempo para carregar mochilas. Nem dinheiro para as comprar, nem para comer, vestir ou calçar. Estás a ver uma planta murcha porque não é regada e lhe falta a água? Pois eram assim as pessoas. Murchas! Descoradas! Desanimadas! As crianças queriam ser crianças, brincar, ir à escola como tu vens, mas não as deixavam. Porque as obrigavam a ser adultas antes do tempo! Meninos-adultos!

(…)

Por isso, foi preciso fazer uma revolução para acabar com os dias tristes, cheios de névoas. Felizmente nem todas as pessoas ficaram quietas. Muitas alimentaram a coragem com a tortura que sofreram ou com o exílio a que foram obrigadas. Para hoje tu teres o que tens e não teres necessidade de sentir que a liberdade é um bem tão precioso como o ar que respiras e a água que bebes. E mais precioso que os telemóveis, ou as playstations, ou as discotecas ou tudo aquilo que os jovens têm porque alguém lutou, sem limite de forças, para que o sonho se tornasse realidade.

Por isso, a escolaridade passou a ser obrigatória. Por isso, tantas bibliotecas estão a ser espalhadas pelo país, a começar pelas escolas. Bibliotecas cheias de sol e cor, mas sobretudo cheias de saber, sem censura, sem estigmas. Onde entram os escritores e os cantores proibidos. Onde entra o mundo pelas janelas abertas. Para as pessoas não serem tratadas como lorpas, ou estúpidas; para todas terem igual acesso ao conhecimento; para terem poder porque saber é poder; para saberem lutar por aquilo a que têm direito; para se saberem defender.”

Em suma, compete a todos, a cada um de nós, contribuir para que deixe de ser necessário instituir-se um dia para lembrar o quanto a literacia é fundamental. Mas isso só acontecerá quando toda a população sentir que a literacia é algo tão natural como respirar.

Ana Paula Oliveira

setembro 2020

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