Abraços e desculpas

Há meses que não nos víamos. Acasos, horários e um vírus traiçoeiro trocaram-nos as voltas. Finalmente, combinámos um encontro. A mesa na esplanada foi escolhida cautelosamente, com as devidas distâncias e as necessárias precauções. Quase a medo, sem jeito, trocámos cumprimentos com um “olá!” estridente e sorrisos escancarados, contendo beijos e abraços. As palavras quase se atropelavam, tal a ânsia de conversa e desabafo. Quase envergonhada, contou-me que arriscara pôr a filha mais velha num campo de férias e o filho numas atividades de tempos livres organizadas pelo colégio. “Teve que ser…  estávamos todos a ficar malucos”, confessou-me, aparentemente aliviada. E eis que vejo a andar direita a mim, braços abertos e pernas trôpegas, a filha mais nova, três anos acabados de fazer. Não tive tempo para pensar. Impossível recusar. Num impulso, dei por mim, sem máscara nem pudor, enrolada num longo abraço à menina de corpo franzino e olhar doce. E a censurar-me pela fraqueza. “Desculpa, não consegui resistir”, desculpei-me à mãe. “Não faz mal, respondeu-me, tranquila. E sorriu: “Adora desinfetar as mãos, mas de resto… Não lhe consigo explicar mais nada… e ela adora abraços!”.

A pandemia tem destas coisas. Afetos refreados e gestos desastrados. Que nos levam a uma penitência estranha, impensável até há tão pouco tempo. “O quê??? Deste um beijo à mãe? Eu não lhe toco há cinco meses!”, ouvi outro dia.

Aos poucos, habituamo-nos a conviver com isto. A controlar cumprimentos e a censurar carícias. A refrear afetos e a denunciar facilitismos. Daqui a uns anos a ciência nos dirá a verdade. Para já, resta-nos esperar que passe depressa este tempo em que se pede desculpa por dar um abraço.

Helena Gatinho

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