Uma lição

Há alturas negras na vida. Golpes profundos e inesperados, que se sucedem sem aviso nem piedade. Como se nos testassem as forças ou a resiliência. Mas é também nestas alturas que, inesperadamente, recebemos uma lição. Quem sabe para nos alumiar o caminho… 

Naquela manhã de julho tórrido, arrisquei, finalmente ir à praia – o calor e a maré vazia convidavam a um passeio na areia para desentorpecer as pernas e desanuviar a cabeça. Receosa das enchentes e das distâncias regulamentares, escolhi uma praia pouco frequentada na Caparica para percorrer uns quilómetros. E lá fui. Com os passos apressados na areia molhada, inspirando o doce ar da maresia e deleitando-me com os intrépidos raios de sol, andei mais de uma hora. Na cabeça, iam-me chegando desgraças, azares e agruras, umas atrás de outras, que me faziam rogar pragas e amaldiçoar a sorte. Dei por mim a soltar suspiros, talvez tenha mesmo refreado um grito.

Estava eu mergulhada nestes pensamentos amargos quando, ao longe, vislumbrei o estranho aparato. Uma espreguiçadeira com rodas era içada, a custo, por um homem e uma mulher. Em cima, um pequeno vulto impávido.  Aos poucos, fui-me aproximando. E percebendo melhor do que se tratava. A cama era agora empurrada para dentro de água, já ajudada pelas rodas, a deslizarem na areia molhada. Tudo para transportar (e refrescar) uma menina. De rosto descaído para um dos lados, olhos semicerrados e corpo estendido e inerte. Para lá do sacrifício, tocou-me o gesto daqueles dois pais que, indiferentes ao esforço, aos olhares (e à canícula), fizeram questão de levar a filha à praia para que ela, mesmo com sérias limitações, pudesse, simplesmente, receber as ondas do mar.

De repente, todos os meus problemas pareceram insignificantes. E dei comigo a conter as lágrimas. Apetecia-me abraçar estes heróis e homenagear-lhes a coragem. Ainda olhei para trás. A menina permanecia apática aos jatos de água que a mãe lhe lançava.

A lição estava aprendida. Acabei a caminhada de sorriso envergonhado. Depois disto, só podia respirar de alívio.

Helena Gatinho

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