Os dias da prima Vera

Todos os verões, a prima Vera vinha passar duas semanas cá em casa com os meus tios. Eles moravam a uns trezentos e tal kilómetros daqui, numa cidade que não tinha uma praia tão boa como esta que temos quase ao virar da esquina, com muita areia para não ficarmos em cima uns dos outros e nem precisarmos de pedir licença a cada dois passos porque pisávamos a toalha de alguém, nem termos de andar meia hora de carro até chegarmos à praia e outra meia hora à procura de um lugar para nos instalarmos. E depois, a água não é lá tão quentinha e calma como esta.

Lá na cidade deles têm aqueles centros comerciais enormes, cheios de lojas interessantes e de cinemas fantásticos, mas não podemos ter tudo, é o que os adultos sempre nos diziam quando nos púnhamos a comparar as coisas boas e más dos sítios onde moramos.

Só que este ano, na primavera, recebi uma mensagem da minha prima Vera a dizer-me que este verão não poderão vir.

Eu e a minha prima Vera sempre fomos como irmãs, ela por ter só um irmão mais velho que nunca queria brincar connosco, eu porque nem sequer tenho irmãos. Quando éramos nós a ir a casa deles, eu também adorava. Era uma casa com montes de espaço para andarmos de patins, jogarmos às escondidas ou raquetes e tinha até dois balouços!

Uma vez, ela não queria que eu voltasse com os meus pais e trancou a porta do quarto por dentro, depois de nos ter abastecido com dois pacotes de bolachas e uma garrafa de sumo. Só que, quando nos foram acordar, as nossas mães ficaram tão chateadas que a minha tia lhe disse que ficaria proibida de continuar com as aulas de ginástica artística e a minha mãe garantiu-me que não voltaria às aulas de canto. E não houve remédio senão abrirmos a porta, até porque já só restavam algumas bolachas num pacote e meio copo de sumo. No fundo, acho que acabaram por achar alguma graça mesmo esforçando-se por parecerem zangadas…

Da última vez que lá tinha estado, quando os adultos pensavam que já estávamos a dormir, ouvimos uma valente discussão entre os meus tios. A minha prima Vera começou a chorar e eu disse-lhe que os adultos às vezes são esquisitos e que aquilo não era nada de especial. Só que ela não parava de chorar e contou-me que, nos últimos tempos, os pais passavam a vida a discutir porque parece que, enquanto o meu tio tinha ido fazer uma operação e ficara em casa a recuperar, os dois sócios dele no restaurante que tinham lhe “passaram a perna” e o “tramaram”, o que nós não percebíamos bem o que queria dizer, mas agora tinham de vender a casa, os carros e parecia que não se entendiam sobre o que fazer a seguir.

E agora, justamente na primavera, a minha estação preferida, recebo esta notícia tão triste de que eles não virão porque vão fazer mudanças e para casas separadas, ainda por cima! Os meus primos irão morar com a mãe e só poderão visitar o pai muito de vez em quando porque ele vai morar ainda para mais longe.

Pedi aos meus pais que falassem com a minha tia para deixarem vir a minha prima Vera de autocarro e eles prometeram-me que tentariam.

Notícia! A minha prima Vera virá e já no meio da primavera, enquanto os pais arrumam as suas vidas.

Ela esteve mais calada do que o costume durante os quase dois meses que cá esteve. Um dia até chorou porque queria voltar para casa. Lá conseguimos distraí-la e mudou de ideias. Deve ser muito difícil o que ela está a passar. Às vezes tento falar com ela sobre isso mas fica zangada. Os meus pais explicam-nos que é normal estar triste e zangada e também que é bom para ela exprimir aquilo que sente.

Hoje começa outra primavera, muitas primaveras depois do que aconteceu no que escrevi no meu diário. Querem as boas ou as más notícias primeiro? Prefiro deixar as boas para o final, então aqui vão as más: os meus tios continuam separados e esta separação fez com que a minha prima Vera passasse muitos dias triste, teve muitas saudades do pai, de se adaptar a uma nova casa, habituar a uma nova escola, novos colegas, tudo novo. Ela sempre me disse que os seus melhores dias eram aqueles em que vinha para cá, às vezes sendo crianças mesmo quando já não éramos assim tão crianças. As boas notícias é que estamos aqui juntas a estudar para os exames do nosso primeiro ano na mesma universidade: ela no curso de Economia, eu no de Design e Marketing de Moda. Moramos juntas no mesmo apartamento… Do pai dela! Volta e meia vamos passar um fim-de-semana com a minha tia que, entretanto, se casou de novo.

Quando converso com a minha prima Vera sobre a separação dos pais dela, já não está triste. Diz-me que passaram por uma crise e não souberam ou não tiveram forças e amor suficiente para ultrapassá-la. Ela espera, e eu também, que cada uma de nós faça as escolhas certas para não nos magoarmos nem aqueles a quem amamos.

Apesar de sabermos que, muito provavelmente, um dia vamos separar-nos para empregos em cidades diferentes, sabemos também que, desde que vamos alimentando a nossa amizade, ela continuará a a florir… em cada primavera da vida!

Sandra Estêvão Rodrigues

Leave a Reply

RECEBE NOTÍCIAS D'A CASA DO JOÃO!

Obrigado por te juntares à Tribo!

Algo está errado! Tenta de novo, por favor!

A Casa do João will use the information you provide on this form to be in touch with you and to provide updates and marketing.
%d bloggers like this: