A(s) Casa(s)

O importante não é a casa onde moramos.
Mas onde, em nós, a casa mora.

Mia Couto

Hoje escrevo-te. Sinto que estás com péssimo aspeto.
A última vez que te vi estava empoleirada numa cadeira a ajudar a tia Maria das Dores a retirar fotografias do avô do tempo de estudante em Coimbra. Estava grávida e mal sabia. Foi há 15 anos. Nunca mais tive coragem de te ver.
Uma casa desabitada vai caindo lentamente, tal como os versos de um poema que ninguém lê.
Depois vem aquele choro adiado. Sentada em silêncio a ver crescer a saudade, a recordar os momentos que vive
mos todos juntos no teu ventre.
Não sei se te verei mais uma vez, fraquejar-me-iam as pernas nesse vácuo pálido e irrespirável.
Uma casa morta é como uma árvore sem chão, o lugar onde entrelaça as raízes, ou um pássaro sem céu, o lugar do seu voo.
Andamos sempre com as mãos vazias, com a sensação de nada possuir e no entanto deste-me tanto.

Depois de tantos anos fui vê-la novamente. Os meus olhos embaciaram. O meu olhar percorreu as paredes exteriores num amarelo pálido. Fiquei a olhá-la em silêncio e percorri cada espaço interior sem ter entrado lá dentro.

Entro pela porta da cozinha. Há poucas portas vermelhas. O vermelho fica-lhe bem, contrasta com a imensidão sombria que habita lá dentro. Só o cheiro da comida, feita no fogão a lenha, saciava os nossos olhos quando voltávamos de mais uma aventura.

Se a eira era sinónimo de trabalho e fadiga para uns, para nós era um majestoso palco de muitas variedades e variações artísticas.

Faço uma pausa. Não consigo impedir uma lágrima de fugir e agarrar-se à pele.

Cada vez que bordo uma palavra, a saudade agiganta-se.

Havia corujas das torres no telhado. Pareciam anjos, mas nunca houve anjos que parecessem corujas. Essa imagem não me sai da cabeça. Foi a partir desse momento que comecei a amar os pássaros.

Habituei-me ao silêncio e ao murmúrio das árvores.

O Avô levantava-se cedo, também eu. Sempre cúmplices desse olhar e das manhãs calvas. Raramente precisávamos de palavras. Afinal, foi ele que me ensinou a respeitar o silêncio. Se o respeitássemos, iríamos aprender muito com ele.

Era nesse silêncio que ficávamos frente a frente a jogar crapô durante longo tempo.

Todas as manhãs ficava na sala à sua espera. A sala, ao contrário da cozinha, era bem iluminada com uma porta delgada, uma janela e uma grande portada onde se via o portão ao fundo da avenida ladeada de palmeiras.

Tudo era preparado ao mínimo pormenor.

Numa das gavetas, existia uma pequena toalha vermelha retangular. Era a toalha que servia de base para pousarmos as cartas cuidadosamente alinhadas.

O silêncio permanecia. Amávamos o mesmo silêncio.

Quando os dias e as noites se enchem de ruído…é para o seu abraço que eu vou.

É assim a saudade. As memórias confortam a ausência. O passado faz vibrar o presente quando uma casa, a casa da nossa infância mora dentro de nós.

Tal como os pescadores querem o mar, eu queria o teu mundo.

As palmeiras encerravam o vento quando descia a avenida.  Se estavas à janela, não te via, andava distraída com as camélias. Não havia brumas, nem devaneios verbais. Apenas, os pés descalços, o olhar nas ameixas douradas entre as folhagens.

Recordo as sombras produzidas pelas lamparinas, a incompatibilidade dos líquidos fazendo a chama vibrar rumo aos traços das noites.

“Somos como uma árvore”

 Pronunciaste estas palavras antes de adormeceres o teu corpo cansado e doente.

E no silêncio das tuas palavras refleti.

“A árvore da vida” respondi…, mas já não me ouviste.

Sílvia Mota Lopes

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