A regra dos quatro

O Renato tinha uma regra essencial na sua vida. Não podia falhar com ela ou tinha a forte sensação de que alguma coisa muito má ia acontecer. Essa regra tinha de ser aplicada sem erros, desse por onde desse, em tudo o que fazia, todos os dias.

Ao princípio, que ele já nem sabia quando tinha sido, não lhe tinha dado nome, só sabia que tinha de fazer tudo em quatro passos. Só mais tarde, já mais crescido, ao tentar explicar-se, lhe tinha chamado “a regra dos quatro”.

Era assim que as coisas se passavam: ao levantar-se da cama, tinha de:

1. desligar o despertador;

2. atirar a roupa de cama para trás;

3. colocar os pés nos chinelos;

4. vestir o roupão.

A coisa complicava-se quando começava a contar os passos para ir ao quarto-de-banho porque os passos não são sempre do mesmo tamanho, e ele contava até quatro, depois de novo e mais uma vez se fosse preciso, mas às vezes no um, no dois ou no três já estava lá e tinha de voltar atrás para recontar os passos e dar a conta certa, ou o dia correria muito mal. E assim se repetia a regra para ir depois para a cozinha tomar o pequeno almoço, contar os goles de leite, as dentadas nas torradas…

E quando se ia vestir? Aí é que era! Uma perna dentro das calças, a segunda e… para não despir as calças, colocava a perna esquerda, tirava e voltava a colocar, fazia o mesmo com a direita e já estava! Com o roupão era ao contrário: braço direito primeiro… Mas estas estratégias para ser mais rápido e não perder o dia em rituais, teve de as aperfeiçoar com muito treino e persistência. É que os seus dias não podiam descambar só porque se enganara na contagem de algum passo numa tarefa.

Isto não era fácil, pelo contrário! O Renato andava quase sempre nervoso com cada vez mais contagens que descobria naquilo que tinha de fazer e, se alguma coisa não corria bem, ficava a martelar-lhe o pensamento de que se tinha enganado nalguma dessas contagens. Quer as coisas lhe corressem bem ou não, começava a ter dores de cabeça com tantas contagens, preocupações e culpas por se poder ter enganado. Além disso, os rituais tinham de ser cada vez mais restritos: pé direito primeiro, segurar o leite com a mão direita e a torrada com a esquerda e assim por diante.

Os pais, claro, começaram a reparar que ele estava a ficar demasiado picuinhas em tudo… primeiro acharam que era da nova escola, depois aquilo já era obsessão e não encontravam razões para tanta repetição das mais pequenas tarefas. E nem podiam imaginar o que se passava na cabeça do Renato num ciclo interminável…

“Um, dois, três… acho que me enganei… um, dois, três, quatro, ah assim hoje ninguém da família vai ter um acidente… um, dois… onde é que eu ia? É melhor recomeçar… pé direito primeiro, ou terei posto o esquerdo há bocado?”

Quando o Renato chegou ao ponto de insistir em usar roupão no verão porque “tinha de ser assim” ou andava da frente para trás e de novo para a frente a medir passos, os pais tiveram uma séria conversa com o filho, que não lhes conseguiu responder porque o fazia.

Resolveram então levá-lo a um psicólogo clínico. O Renato colaborou porque já se sentia cansado daquilo. O psicólogo, depois de uma avaliação cuidada, esclareceu-os de que o Renato tinha uma Perturbação Obsessivo-Compulsiva – POC. A primeira pergunta que todos fizeram em coro foi se a tal POC tinha cura. Ter, tinha, só ia demorar uns bons meses, talvez mais de um ano e todos tinham de fazer a sua parte.

Aos pais cabia-lhes não pressionarem o Renato, não o acusarem dos rituais nem passarem a vida a perguntar-lhe o que já tinha conseguido deixar de contar.

Ao Renato, bem, ao Renato competia-lhe acreditar que era capaz de superar a situação, que não possuía o controlo de tudo o que lhe acontecia mas que podia controlar-se a si próprio. Que desafios difíceis!

Difíceis, não impossíveis. O Renato curou-se? Sim! De vez em quando vai a umas sessões de seguimento, apenas para se sentir acompanhado e orientado no que precisar. Enquanto vos conto a sua história, estou a vê-lo jogar ténis de mesa com um amigo e agora não há cá contas a fazer!

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