Será que as histórias podem curar?

Esta é uma questão que me tem ocupado os pensamentos nos últimos tempos, enquanto participo num curso on-line sobre “Contos Terapêuticos”.

Afinal, escrevemos e/ou lemos e/ou contamos histórias para e/ou às nossas crianças com que propósito? Para as entreter? Para melhorar a sua leitura e/ou a sua escrita? Para ensinar conteúdo teórico? Para ensinar lições de vida, a “moral da história”? Ou só porque dizem que ler faz bem?

Tu, PAI ou MÃE, já pensaste o que te motiva a ler ou contar histórias aos teus filhos?

Será possível que as histórias também possam curar?

Cada vez acredito mais no poder curativo das histórias.

No seu poder curativo quando as escrevo e me salvo a mim mesma de alguma dor.

No seu poder curativo quando conto histórias ao meu filho e o salvo de alguma inquietação. 

No poder que as histórias têm de experimentarmos a vida, com toda a sua dor, sem doer de verdade, mas fazendo-nos sentir como quase de verdade a cura dessa dor.

No poder que as histórias têm em permitir-nos encontrar, assim como se fosse por acaso – não me parece que seja – a resposta e a cura para uma dor verdadeira que sentimos.

Mas terão todas as histórias este poder? Provavelmente não.

Segundo Bruno Bettelheim, um dos autores que o referido curso on-line me levou a conhecer e pesquisar, encontramos esse poder curativo sobretudo nos contos de fadas, referindo-se aqui aos contos de fadas originais / tradicionais / populares, que falam do bem e do mal de uma forma clara e direta, em vez de mostrar apenas o lado belo da vida, como acontece em alguns livros mais “modernos” ou nos contos adaptados. De acordo com o mesmo “(…) o conto de fadas elucida-a [a criança] sobre si própria e promove o desenvolvimento da sua personalidade.”1 O referido autor afirma que o conto de fadas é terapêutico “(…) porque o paciente encontra a sua própria solução contemplando o que a história parece conter a seu respeito e a respeito dos seus conflitos interiores nesse momento da sua vida.”2

Então e as outras histórias infantis, os chamados “contos modernos”, não poderão ter poder curativo?

Eu diria por experiência própria que sim, ainda que não todos, mas quantas das histórias infantis “modernas” fazem as nossas crianças refletir sobre temas que as preocupam e as ajudam a lidar com esses assuntos? Quantas as fazem colocar-se no lugar do herói ou da heroína da história e conquistar a sua própria confiança para vencer os seus obstáculos e medos? Quantas as fazem acreditar que “vai correr tudo bem”?

E quantas dessas histórias nos tocam a nós, adultos, e nos ensinam alguma coisa que precisávamos aprender e não sabíamos? Quantas dessas histórias parecem ter sido escritas propositadamente para nós ou para os nossos filhos, porque surgem no momento certo, com a resposta mágica que precisávamos obter para continuarmos o nosso caminho “adulto” ou para os nossos filhos continuarem o seu percurso rumo ao adulto que um dia serão?

E depois há as histórias que não são para curar, são por exemplo para rir… mas não dizem que rir é terapêutico? Há histórias que falam de viagens e levam as crianças a conhecer o mundo sentadas no sofá… e isso não é bom? Há também as histórias que pretendem ensinar sobre algum assunto, procurando acrescentar informação aos livros escolares de uma forma mais atrativa, … e porque não?

Acredito que algumas histórias podem curar… e que há outras que não curam, porém podem ser igualmente boas histórias. Porque para diferentes pessoas, diferentes idades, diferentes maturidades, diferentes gostos e interesses, histórias diferentes podem ser a história certa no momento certo.

Sofia Coelho Branco / Cláudia Peneda

Notas:

1) BETTELHEIM, Bruno (1975, 1976), in Psicanálise dos Contos de Fadas, Bertand Editora, Lda (15ªedição – 2018), página 22

2) BETTELHEIM, Bruno (1975, 1976), in Psicanálise dos Contos de Fadas, Bertand Editora, Lda (15ªedição – 2018), página 40                    

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