As desventuras de uma barata muito, muito faladora

Tiago Salazar nasceu em Lisboa, em 1972.

Formou-se em Relações Internacionais e estudou Guionismo e Dramaturgia em Londres. É doutorando no Instituto de Geografia onde prepara uma tese sobre A Volta ao Mundo de Ferreira de Castro. Trabalha como jornalista desde 1991, atualmente como freelancer. Venceu o prémio Jovem Repórter do centro Nacional de Cultura, em 1995. É formador de escrita e Literatura de Viagens. Idealizou, escreveu e apresentou o programa Endereço Desconhecido, da RTP2. Foi Bolseiro da Fundação Luso Americana em Washington, em 2010. Foi vencedor do Prémio de Literatura na XVII Gala dos prémios da revista Mais, em 2018.

Enquanto autor publicou diversos Livros, desde 2007, até 2020. O mais recente, o livro infantojuvenil “A Fala-Barata” as desventuras de uma barata muito, muito faladora que tenho a certeza que vai dar muito que falar.

Tiago, depois de teres escrito muitos géneros literários, tais como: livros de viagens, romances e crónicas, surges agora com um novo livro “A Fala-Barata”, as desventuras de uma barata muito, muito faladora para o destinatário infantojuvenil. Como surgiu a ideia de escrever este livro?

A ideia nasceu de uma brincadeira com a minha filha Margarida a quem chamo de Gigi e que fala, fala, fala, ou seja, é uma fala-barato. Pensei então no bicho repugnante. O oposto da Gigi que é linda. Depois juntei 1+1. Ninguém gosta de fala-baratos nem de baratas. Ora a minha barata do livro chama-se Gigi e fala pelas antenas que se desunha. É também muito vaidosa. No fundo é um livro sobre como lidar com os preconceitos. 

Se é um livro sobre como lidar com os preconceitos, queres descrever resumidamente ou podes dar um exemplo que comprove o que referes?

Primeiro, quem gosta de baratas? Que eu saiba só a Clarice Lispector (ler A Paixão Segundo GH). E não se gosta, porquê? Por estarem associadas ao mundo rasteiro, nojento, infecioso, ignóbil, putrefacto…

O único ou um dos únicos animais que sobrevive a uma guerra nuclear sem um arranhão. Eu não gosto de baratas, a ponto de as querer para animal de estimação. Mas quando as vejo, olho para elas e estudo-lhes o comportamento, que não é ameaçador. Não há ataques de baratas. Chamamos pragas porque se multiplicam e espalham doenças. Os chineses também. Os homens e os pombos são bem piores. O livro conta então a história de uma barata solitária que tem família e é instruída, como todos os solitários. Acaba por fazer amizade com uma traça que lhe mostra o mundo de outra perspetiva…

Queres falar um pouco sobre as ilustrações, essa linguagem imagética do teu livro?

A ilustradora chama-se Elsa Escaja e é fantástica. Foi ela que deu vida a toda a linguagem visual do livro, pois o design também é da sua autoria. A dinâmica do livro é muito elegante e harmoniosa. Nenhuma criança passaria da primeira página só com a leitura do texto, por melhor que ele seja O mundo infantil vive de formas e as palavras ganham vida com o som e a imagem por isso além disto haverá um espetáculo de teatro e dança a cargo da atriz e Encenadora Maia Ornelas que é igualmente fantástica.

 “A Fala-Barata” foi encenada e dramatizada pela atriz e encenadora Maia Ornelas em espetáculos de teatro para crianças… como germinou essa parceria?

A Maia, que além de professora é atriz, encenadora e a alegria em pessoa, tem o dom de pôr logo as personagens a voar. Germinou, pois da paixão e do amor pela literatura, o teatro e a dança, pois a barata tem jeito para dar às patas.

Quais os objetivos deste espetáculo de teatro-dança para crianças?

Penso que divertir as crianças é o principal objetivo e certamente que com a energia da Maia e o carinho das palavras só pode resultar num bom momento.

Para além do espetáculo de teatro para crianças, que outras atividades gostarias de ver desenvolvidas?

Livro e espetáculo são o casamento perfeito. Isto porque o livro está cheio de palavras que pedem movimento, corpo, dança. Acho que todos os livros infantojuvenis, ou mesmo todos os livros, deviam ser lidos em voz alta, e representados. As artes são afins. Podia incluir o desenho, a ilustração, a pintura, etc., e assim sendo, também é de pensar na ideia de ter um ilustrador do espetáculo ao vivo, como há desenhadores nos tribunais, a fazerem retratos da audiência. Também estou disponível para ir a futuros eventos literários, encontros com escritores e ilustradores, bem como a apresentações em Jardins de Infância e a escolas, com o objetivo de promover a leitura, desenvolver o prazer de ler e estimular a criatividade.

Como se chama a companhia de teatro e de que forma as pessoas podem adquirir ou contactar o seu serviço?

Iremos fazer lançamentos e espetáculos em simultâneo, pois a Barata é muito irrequieta e não se aguenta em ficar apenas nas páginas de um livro. Assim que seja levantado o Estado de Emergência faremos o anúncio do calendário de atividades com arranque no Norte e passagem obrigatória por Braga. A companhia chama-se Teatro do Tapete e trabalha com teatro e dança. Podem contactar através do e-mail maiasalenro@hotmail.com

Há tempos Carlos Leitão editou um CD com a colaboração de alguns amigos e tu também colaboraste com um poema. Para além de prosador, também te sentes um pouco poeta?

Gosto da música nas palavras e aconteceu o meu grande amigo, cantautor, Carlos Leitão, me pedir um poema. O poema estava publicado num livro chamado Hei-de Amar-te Mais (ed. Leya), e é uma Canção de Embalar (o Amor). Não me sinto poeta, a ponto de me atrever a publicar apenas poesia, mas se um poema pede para sair, por vezes acontece dar-lhe liberdade de expressão. Tenho uma “obra completa” de 6 poemas!  

Sei que tens uma adoração especial por Clarice Lispector, por Henry Miller, entre outros, mas Jiddu Krishnamurti é fundamental na tua vida.  Jiddu Krishnamurti é para ti uma espécie de guia espiritual?

Krishnamurti é um dos pensadores mais notáveis que o mundo conheceu. Deixou ensinamentos eternos para qualquer era. Gosto particularmente do facto de desarmar todos os pressupostos adquiridos. Diz: não faças o que digo, nem sigas o que eu penso. Leio-o e releio-o sem dizer ámen. Acompanhando a cadência da sua simplicidade em tudo relacionar sem dizer o caminho é este, mas deixando a escolha no livre arbítrio. Um anarquista espiritualista. Se cada um fizer a sua parte seguindo um exemplo que poderemos chamar do bem universal, reflete-se no todo. Todos somos tudo.

Terminamos a nossa entrevista com a citação que Tiago Salazar frequentemente usa quando escreve.

 “A vida exige ação extraordinária, criadora, revolucionária. Só no despertar dessa inteligência criadora há possibilidade de se viver num mundo pacífico e feliz” (Jiddu Krishnamurti)

Entrevista conduzida por

Sílvia Mota Lopes

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