Ser mãe

Sempre quis ser mãe. Desde o tempo em que brincava com as bonecas. Eu era a mãe e as bonecas eram os meus filhos.  Nasci numa casa perto de um pequeno monte. Quando era pequena, parecia enorme, tal como os livros quando lhes pegava com as minhas mãos pequeninas.  No andar inferior, vivia um casal com quatro filhos. Todos mais novos do que eu. Eu cuidava deles, principalmente do mais pequenino, o Márcio. Ainda me lembro do seu nome. Mudei-lhe a fralda muitas vezes. Naquele tempo, as fraldas eram de pano. Eram necessárias duas fraldas. Tinha de pôr uma fralda em forma de triangulo e outra em forma de um retângulo no meio para reforçar. Unia as três pontas e colocava um alfinete de segurança. Havia alfinetes com cabeças engraçadas em forma de animais e de variadíssimas cores. De seguida, protegia-se com uma cueca de plástico que apertava com molas laterais. Imagino a quantidade de fraldas que aquela mãe tinha para lavar ao longo do dia. Poucos tinham máquinas de lavar naquele tempo. Tal como imagino a minha mãe, no tanque a lavar as minhas fraldas e as fraldas do meu irmão.  Havia uma pomada, o lauroderme, ainda hoje é marca de referência. A pomada que deitava quando o rabinho ficava com a pele irritada. Naquele tempo também se usava pó de talco, mas chegaram à conclusão que provocava alergias e caiu em desuso.

Andava no primeiro ciclo. Quando os meus vizinhos mudaram de casa e foram morar para longe, senti muitas saudades. Cheguei a ir dormir algumas vezes à sua casa nova.

Sou a neta, sobrinha e prima mais velha e tive a sorte de crescer numa família numerosa, tanto da parte materna, como paterna. Devem imaginar, pois, que esse instinto maternal prevaleceu durante muitos anos. Contava histórias às minhas primas antes de adormecerem, fazia-lhes penteados. Brincamos muito durante a nossa infância.  Desempenhei o papel de mãe muitas vezes nos jogos e brincadeiras quotidianas.

Quis ser mãe. Quando era jovem dizia que ia ter muitos filhos, tal como uma equipa de futebol. Toda a gente se ria, como é óbvio.

Quando fiquei grávida pela primeira vez fiz questão que todos soubessem, todos, isto é, a família e amigos mais próximos. Foi uma alegria imensa. Não imaginava é que fosse tão doloroso. Enjoos matinais, muitas idas noturnas à casa de banho, privação da melhor posição para dormir, enfim uma série de transtornos característicos da gravidez. O Parto foi natural, não quis epidural e durou 6 horas. A minha filha nasceu com quarenta semanas certinhas, nem um dia a mais, nem um dia a menos. Depressa esquecemos as dores do parto e o instinto de ser mãe está lá, onde não sei bem, mas está enraizado. Há estudos a comprovar que há mulheres com mais instinto para ser mãe do que outras, está nos genes. Após um ano e meio engravidei de novo. Queria muito um menino, sim nasceu um menino. Disse que queria um menino também para homenagear a avó do meu marido. Ela morreu em fevereiro e foi nesse mês que engravidei.  Ela só gostava de rapazes, dizia que as meninas eram louça rachada, vejam só! Não ficava chateada, até me ria. O que havia de fazer, se não me rir dos disparates, ou não, de uma velhinha de oitenta e tal anos? Eu sei que ela tinha as suas razões. A mulher, naquele tempo, não tinha liberdade nenhuma. O machismo prevalecia naquelas mentalidades deturpadas e doentes. Ela não queria ter nascido menina, preferia ter nascido menino, para ter mais direitos e liberdade.

Eu gostei de ter nascido menina. Ainda bem que sou do sexo feminino. Estou grata a todas as mulheres que lutaram pela igualdade de géneros.

Tinha dois filhos naquela altura. Era mãe de dois filhos. Dediquei-me de corpo e alma. Tentei sempre dar-lhes o melhor.  O melhor, ou seja, segurança, saúde, bem-estar físico e mental.

Ser mãe é uma aprendizagem contínua e uma constante presença, mesmo que não seja física.

Passaram alguns anos e parecia que algo não estava bem.  Tive um desejo enorme de ter outro filho. Sabia que tinha condições para que isso acontecesse. Com 35 anos engravidei. Nasceu uma menina. Foi a alegria da família. Dos irmãos e dos avós.

Ficar grávida e ser mãe foi a melhor experiência da minha vida. Apesar das dores, do sofrimento e da responsabilidade que isso acarreta. E quem é mãe sabe que nunca mais se dorme tranquilamente. O cordão umbilical está sempre unido, mesmo na sua invisibilidade.

Não há amor tão forte e intenso como o amor de uma mãe.

Ser mãe, não é apenas passar pela gravidez e pelas dores do parto. É uma condição eterna. Há mães que nunca engravidaram, mas desempenham essa função com a mesma profundidade e intensidade como se os filhos estivessem estado no seu ventre.

As mães merecem todo o apoio do mundo.  Merecem todos os cuidados e atenções. Merecem estar bem a todos os níveis para poderem ser mães.

Ser mãe, é ser amor a vida toda.

Sílvia Mota Lopes

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