Leitores, leituras e bibliotecas

Enquanto leitora, desde que aprendi a ler, e professora, há muitos anos, não suporto a expressão, tantas vezes usada (inclusivamente nas escolas), “leitura obrigatória”. O adjetivo “obrigatória”, por si só, já afasta qualquer vontade de ler.

Não poderia estar mais de acordo com o filósofo e escritor espanhol Fernando Savater quando,  numa entrevista conduzida pela jornalista Ana Sousa Dias, diz que os prazeres se contagiam, não se impõem, e que os jovens devem ser introduzidos na leitura de uma forma lúdica e não forçada para que, começando com obras mais acessíveis, aos poucos, passem para obras mais complexas.

Então, mais do que obrigar a ler (até porque o verbo ler, como disse Daniel Pennac, não suporta o imperativo), importa sugerir, mostrando os livros (capas, sinopses, booktrailers…), promover fóruns de leitura em sala de aula, falar dos livros e comprovar que têm magia, que vão dar prazer e divertir, que vão fazer sentir, que vão permitir viajar e viver de forma diferente. E vão dar a conhecer tantas vidas que vivem dentro deles.

E muitas são as atividades possíveis para que estes objetivos, definidos pelo mediador de leitura, sejam alcançados.

Um mediador de leitura que queira contagiar deve, voltando a citar Savater, “inteirar-se não dos livros que ele quer que o miúdo leia, mas, sim, dos livros que o miúdo quer ler”, facilitando o diálogo entre os livros e o leitor.

Não há mediador de leitura que leve os outros a ler se não conhecer profundamente os livros para os adequar ao gosto pessoal de cada futuro leitor, que não fale com paixão sobre eles, que não use técnicas de persuasão. Falar de um livro com imenso entusiasmo é o caminho certo para que o recetor ganhe vontade de o ler.

Enquanto professora de português, começo o ano letivo levando um saco de livros para a sala de aula, para os alunos começarem a fazer as suas escolhas. No blogue que mantenho para as minhas turmas são, também, sugeridas leituras de acordo com os seus interesses, a sua faixa etária, ou relacionados com conteúdos programáticos. 

Após fóruns de leitura, em sala de aula, já vi alunos saírem da sala a correr (literalmente) para irem à biblioteca buscar o livro que acabou de ser apresentado.

Já vi uma aluna chorar porque era a única na turma que não estava a ler um livro, por isso não tinha nada para partilhar, ao contrário dos colegas que falavam com entusiasmo do livro que estavam a ler.

Já ouvi uma aluna dizer, cheia de emoção, que quando tivesse um filho lhe daria o nome da personagem do livro que tinha acabado de ler, de tal maneira a marcou. Chamar-se-ia Shmuel, como o miúdo judeu do livro O rapaz do pijama às riscas.

As visitas à biblioteca escolar, pelas turmas, são fundamentais para que os alunos possam escolher os títulos, a partir da apresentação de um conjunto de livros de temas e géneros variados, que contribuam para lhes despertar a curiosidade pela leitura, assim como alargar o seu conhecimento de títulos que, provavelmente desconhecem. E os momentos de leituras para as crianças são únicos. É um prazer enorme ouvir os alunos – “Gostei tanto deste livro!” – e vê-los, de seguida, a quererem requisitar o livro que acabou de ser lido.

Tudo isto não acontece por acaso. É preciso envolver os alunos, antes, durante e depois da leitura, com atividades e técnicas variadas e sedutoras que captem a sua atenção e interesse. É preciso mostrar, assim como quem não quer nada, que entrar numa biblioteca é entrar num lugar mágico, é entrar num lugar onde se concede a todos os cidadãos a oportunidade e o prazer de serem andarilhos pelo mundo.

Para concluir, mais uma vez concordo com o grande pensador Fernando Savater: “ler também é diversão”. Pena que muitas pessoas não o tenham descoberto. Mas estão sempre a tempo!

Ana Paula Oliveira [maio 2020]

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