Luís Sepúlveda: o ponto de encontro com o leitor

Luís Sepúlveda, que tem toda a sua obra publicada em Portugal, considerava “muito bonito” esse encontro entre quem escreve e quem lê, por tornar cada leitura diferente de outra.

O escritor asceu em Ovalle, na região de Coquimbo, no sul do Chile, em 04 de outubro de 1949, estreou-se nas letras em 1969, com “Crónicas de Piedro Nadie” (“Crónicas de Pedro Ninguém”), dando início a uma bibliografia de mais de 20 títulos, que inclui obras como “O Velho que Lia Romances de Amor” e “História de Uma Gaivota e do Gato que a Ensinou a Voar”.

A sua estreia literária foi aliás auspiciosa, com a conquista do Prémio Casa das Américas, em 1970. A obra garantiu-lhe também uma bolsa de estudo de cinco anos, na Universidade Lomonosov, em Moscovo, onde esteve cinco meses, até ter sido expulso pelas autoridades soviéticas. Regressado ao Chile, foi igualmente expulso da Juventude Comunista. Inscreveu-se então no Partido Socialista Chileno o que o levou à Unidade Popular, coligação que vencera as eleições de 1970. Dedica-se então, sobretudo à atividade política. Entra no círculo mais próximo do Presidente Salvador Allende, eleito no contexto da coligação, fazendo parte da sua guarda pessoal. Allende acabaria destituído e morto, no golpe de estado militar de 11 de setembro de 1973, liderado pelo general Augusto Pinochet. A instituição da ditadura no Chile levou o escritor à prisão, primeiro, e depois ao exílio, na sequência de uma intervenção da Amnistia Internacional.

Iniciou então o que definiu, em entrevista à Lusa, em 2016, como “uma digressão de trabalho pela América do Sul”, até alcançar “um porto seguro na Europa”, nomeadamente na Suécia, antes da Alemanha, e de Espanha, onde acabou por se fixar.

Durante a segunda metade da década de 1970, trabalhou no Brasil, Paraguai, Uruguai e no Equador, onde viveu com os índios Shuar, e participou numa missão de investigação científica da organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO).

Nesta altura firmou amizade com o ambientalista brasileiro Chico Mendes (1944-1988), a quem dedicou o seu mais conhecido título, “O Velho que Lia Romances de Amor” (1988), o seu segundo livro.

Sepúlveda publicou 21 títulos, entre os quais “Uma História Suja” (2004), “História de Um Gato e de Um Rato que se Tornaram Amigos” (2012), “Uma Ideia de Felicidade” (2014), “História de um Cão Chamado Leal” e “História de Um Caracol que Descobriu a Importância da Lentidão” (2015), “O Fim da História” (2016) e “Os Piores Contos dos Irmãos Grimm” (2018).

Em 2016, numa entrevista à Lusa, disse:

“Sempre vi a literatura como um ponto de encontro. Primeiro, é um ponto de encontro do escritor com a sua própria memória, com as suas referências culturais e sociais. Depois, é um ponto de encontro entre dois estados de alma: o do escritor, quando estava a escrever, e o do leitor, no momento em que lê.”

“Todas as personagens têm algo — muito — do autor e isso é o fascinante da literatura. As personagens ‘boas’ naturalmente reúnem a melhor parte de nós, porque são uma demonstração da parte boa, mas as personagens malvadas também são uma parte de nós, uma vez que ativam a nossa capacidade de ser perversos, maus, cruéis.”

“Um escritor está sempre com os seus fantasmas e, quando começa a escrever, estes, naturalmente, saem à luz, para o bem e para o mal”.

O escritor viajava regularmente a Portugal, nomeadamente para participar no evento Correntes d’Escritas, na Póvoa de Varzim, onde esteve presente em fevereiro passado. Em 29 de fevereiro último, quando regressou a Gijón, no norte de Espanha, onde residia, foi-lhe diagnosticado covid-19. Luís Sepúlveda era casado com a poetisa Carmen Yáñez, que o acompanhou na viagem.

Era também presença regular na Feira do Livro de Lisboa e, em 2016, foi o único escritor de língua espanhola a participar na iniciativa “Viagem Literária”, que percorreu todas as capitais de distrito e as regiões autónomas portuguesas.

Em 2016, recebeu o Prémio Eduardo Lourenço, que apontou na ocasião como “uma grande honra” e acrescentou: “Este prémio tem para mim um significado muito especial e muito emotivo. É um prémio de uma emoção muito especial e só me resta dizer muito obrigado”.

Como escritor, além do Prémio Casa das Américas, Sepúlveda foi distinguido com os prémios Gabriela Mistral/Poesia, em 1976, Rómulo Galegos/Novela, em 1978, Tigre Juan/Novela em 1988, o de Contos “La Felguera”, em 1990, e o Prémio Primavera/Romance, em 2009.

Para ti, escreveu livros emblemáticos, como: História de uma gaivota e do gato que a ensinou a voar, História de um gato e de um rato que se tornaram amigos, História de uma baleia branca, História de um caracol que descobriu a importância da lentidão, Todas as fábulas e Os piores contos dos irmãos Grim.

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