Quem conta um conto tem o direito (e o dever) de acrescentar um ponto!

José Viale Moutinho nasceu no Funchal, em 1945. Jornalista e escritor, tem várias obras editadas, algumas delas traduzidas nas mais diversas línguas, como o russo, búlgaro, castelhano, alemão, italiano, catalão, asturiano e galego. Estreou-se em 1968 com a novela Natureza Morta Iluminada. Foi diretor da Associação Portuguesa de Escritores, da Sociedade Portuguesa de Antropologia e Etnologia, do Círculo de Cultura Teatral e presidente da Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto. É sócio do Pen Clube Português, da Academia de Letras de Campos de Jordão (Brasil) e membro honorário da Real Academia Galega. Autor de cerca de meia centena de livros para crianças, bem como de trabalhos nas áreas de investigação de Literatura Popular, da Guerra Civil de Espanha e da deportação espanhola nos campos de concentração nazis, bem como de estudos sobre Camilo e Trindade Coelho. Ficcionista e poeta, recebeu, entre outros: Grande Prémio do Conto Camilo Castelo Branco/ APE, Prémio Edmundo de Bettencourt de Conto e de Poesia, Prémios de Reportagem Kopke, Norberto Lopes/Casa da Imprensa de Lisboa e El Adelanto (Salamanca); Pedrón de Honra (Santiago de Compostela). Traduções em castelhano, galego, catalão, italiano, alemão, russo, esloveno, búlgaro, asturiano, entre outros idiomas.

José Viale Moutinho

Na hora de receber o Prémio Pessoa, o arquiteto Carrilho da Graça, na sua bem estruturada alocução, diz: “O trabalho de criação é um trabalho que – tal como a poesia ou a arte – produz conhecimento”. Enquanto criador de universos literários infantojuvenis, como se reconhece nesta asserção?

Eu tenho para mim que isto de escrever para crianças ou serve para dizer qualquer coisa – de modo mais alegre, de modo mais sisudo – ou não vale a pena fazê-lo. Assim como não vale a pena ser chato na escrita ou escrever como quem puxa o tapete aos jovens leitores. Às vezes, ando a contar uma história durante muito tempo pelas escolas, acrescentando novos elementos aqui e acolá, procurando aboná-la. E só depois a escrevo mesmo. Se não abrir janelas para o mundo, mesmo que o mundo seja logo ali, com o que escrevo, é porque me falha qualquer coisa! Mas não me armo em moralista, não é papel que me convenha.

A sua escrita para crianças e jovens constrói-se, essencialmente, sobre os conceitos de tradição e modernidade, numa simbiose bem urdida de arte e pedagogia. Essa ocorrência é uma herança ou a procura obstinada de síntese de um adulto na era da globalização?

Antes de escrever nesta área, já eu trabalhava em termos de Literatura Tradicional, pois era algo em que podia fazer antiglobalização. Era uma questão de defesa de identidade. Eu dispunha de uma tradição oral familiar duriense muito conforme com a narrada no conto “À Lareira” de Trindade Coelho. Daí passei à pesquisa bibliográfica e ao encontro das populações. No Diário de Notícias dos anos 80 e 90 escrevi sobre usos e costumes, sobre tradições orais, material esse que recolhi em três ou quatro volumes. Na Afrontamento, com ilustrações da Fedra Santos, criei duas coleções de Tradições Populares Portuguesas, de assinalado êxito de vendas, mas cuja importância nunca foi devidamente assinalada, salvo no Plano Nacional de Leitura; O Livrinho das…, etc., e O Grande Livro das…, constantemente reeditadas. Isto tem sido importante para as escolas disporem de Literatura Popular Portuguesa em antologias de duas dimensões funcionais. A modernidade entra do conhecimento que tenho do tempo em que vivo. Nunca digo «no meu tempo» a não ser para me referir a este que aqui vai com toda a gente! E a modernidade participa no universo tradicional com lauto tributo, hem?

Em As visitas do Pai Natal e O Cavaleiro da Tortalata, os mitos e a atualidade interagem numa tessitura harmoniosa. Que finalidade persegue relativamente aos destinatários – leitores?

Essas são as minhas primeiras tentativas de dar uma volta às coisas. Com o livro d’ As visitas do Pai Natal quero sensibilizar algumas crianças de que têm de ser mais didáticas com os pais se querem receber efetivamente determinada maquineta eletrónica, e com o livro do Tortalata, que as coisas às vezes não são bem como nós pensamos… mas exatamente ao contrário! Ainda um dia, escreverei uma Branca de Neve má como as cobras e um Capuchinho Vermelho capaz de enganar o Lobo Mau, para não falar doutras intervenções! Bem, mas há quem pega num Teófilo Braga ou num Leite de Vasconcelos e use os seus textos como cânones fixos dos contos. Errado, quem conta um conto TEM O DIREITO (E O DEVER) DE ACRESCENTAR UM PONTO! Sempre foi assim enquanto não se reduziu o Oral ao Escrito. O escrito é apenas um acidente de percurso, chamemos-lhe assim. E chega. Não persigo os meus leitores, quero é que eles sejam felizes, mais ainda lendo o que vou escrevendo. E que fiquem alertados para o que for preciso.

Nas suas obras para adultos, a sátira utiliza, sobretudo, a ironia e o sarcasmo como mecanismos denunciadores de injustiças. Porém, quando o destinatário se situa na infância ou na adolescência são o humor, essencialmente, e a ternura, aliados à imaginação que escorrem fotogramas deliciosos. Estou-me a reportar, por exemplo, à biografia pessoana na Coleção Crianças Famosas. A referência reiterada ao amigo imaginário do poeta – Chevalier de Pás – pretende ser um contraponto?

A máquina eletrónica é a materialização do Chevalier de Pás das crianças do nosso tempo. Eu tive uma data de amigos invisíveis e até ando a escrever uma história sobre um deles, que, por sinal, era filho de um antigo herói da televisão a preto e branco, o Homem Invisível! Mas noto que o livro se vai tornando, uma vez mais, o amigo visível das crianças do nosso tempo. A questão é que elas saiam do ensino obrigatório com os livros debaixo do braço. Daí que chegar ao 12º ano escolar implicará leituras, mais leituras, mais contactos com estimuladores – professores e escritores – nas escolas. Chegou a altura de falarmos na Ilha do Tesouro, no Tarzã, no Walter Scott, no Harry Potter, na literatura policial, na ficção científica, na literatura fantástica, nos mais modernos escritores de todos os países, em O Velho e o Mar, de Hemingway, numa data de coisas e de gente, até nos melhores contos portugueses…

Iuri Lotman, em “A estrutura do texto artístico”, fala sobre os sistemas “modelizantes” das várias artes no tratamento do Real. Nos seus dois volumes sobre pintores: Domingues Alvarez e Henrique Pousão, consegue por uma efabulação criativa transpor, de um modo natural, um sistema noutro. Como encarou e realizou esse trabalho hermenêutico?

Quando, aqui há uns anos, a Campo das Letras, começou a publicar a tradução da coleção inglesa Crianças Famosas, pensei que seria o lugar ideal para fazer sair um volume sobre Fernando Pessoa com aquelas características. Houve que pedir autorização a Londres e enviar uma versão inglesa do livrinho (feita amavelmente pela Ana Saldanha), que foi aprovada. As ilustrações eram do pintor Fernando de Oliveira, meu compadre e ilustrador de muitas outras obras. O livro saiu e, como sempre estive fora do lobby, o silêncio foi quase total. O livro teve duas edições e deu-me na ideia continuar a escrever sobre escritores e pintores. Assim saíram: A conferência do Professor Lagosta (sobre Sá de Miranda), A Cidade das Pessoas Tortas (em torno de quadros de Alvarez) e A menina da janela das Persianas Azuis (sobre quadros de Pousão), estando para sair um outro sobre Camilo Castelo Branco. Ora, no caso do Pousão houve um curioso e custoso contratempo. A editora teve de pagar custosos direitos pela reprodução dos quadros ao Instituto Português de Museus, seja ao Estado. Ora o Estado tem em vigor uma lei em que se pode apossar graciosamente de textos meus e oferecê-los a todos aqueles que fizerem antologia didáticas de português, sujeitos estes que, por certo, ganham dinheiro com os meus textos. Além disto, pega nos meus textos (e dos demais escritores) e faz deles o que lhes apetece, publicando-os com a indicação (adaptado)… como se isso não pervertesse o que eu lá escrevi! Ora bem, o Estado quer divulgar-me à força e eu estou vivo, enquanto exige bastante dinheiro pela reprodução de pinturas de artistas que estão no domínio público! Entende-se? Bem, mas adiante. Nuns casos é a biografia, ou só sobre a adolescência ou abarcando a vida, usando várias técnicas narrativas, noutros inventando histórias em torno dos quadros, que poderão estar, eventualmente, conforme a biografia. Porém, as mais das vezes são especulações em torno do pintado. O Museu Nacional Soares dos Reis, por exemplo, é um manancial de histórias fascinantes, porém, já vi. Encarece muito o livro contá-las com os devidos pontos de partida. O Instituto Português de Museus impede este tipo de divulgação. Ou quer fazer o novo Museu dos Coches à nossa custa!

Debruça-se apaixonadamente na literatura oral popular, codificada sob forma de provérbios, adivinhas, ditos, lengalengas, recriando-a como literatura escrita através de processos variados que lhe conferem esse estatuto. No cânone de literatura infantojuvenil, que significado assume esta tipologia de textos?

Nas minhas muitas idas às escolas, com a Literatura Popular, creio que estimulei centenas de crianças a lerem a chamada literatura infantil – passe a expressão que é mesmo literatura para crianças! Foi essa ponte de exercícios de linguagem de imaginação, etc. que serviu. Ainda o outro dia, na piscina, uma menina chegou junto de mim e recitou-me, muito prazenteira, uma enorme lengalenga!

Entrevista conduzida por Manuela Maldonado (Originalmente publicada em Solta Palavra 15).

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