O escritor é um mágico, tenta fazer coisas extraordinárias com as palavras…

Nuno Higino nasceu a 16 de julho de 1960 em Felgueiras, próximo do Porto. Entre 1988 e 2001 foi pároco em Marco de Canaveses, período durante o qual foi construída a igreja de Santa Maria com projeto de Álvaro Siza. Em 2001 foi estudar Filosofia. Em 2003 matriculou-se num programa de doutoramento em Madrid na Faculdade de Filosofia da Universidade Complutense. Renunciou ao sacerdócio em 2004. Na sua investigação, concluída em 2007, procurou interpretar os desenhos de Álvaro Siza a partir de Jacques Derrida. É professor de Estética e História da Arte na Universidade Fernando Pessoa e responsável editorial da Letras e Coisas. Tem vários títulos publicados na área da poesia e da literatura infantojuvenil, editados na Letras e Coisas, Campo das Letras, Caminho, Cenateca e Trinta Por Uma Linha.

O século XX emancipou, definitivamente, como género literário, a escrita infantojuvenil. Presentemente inunda o mercado um número significativo de livros. Em seu entender, e tendo em conta o destinatário, que parâmetros importantes devem configurar esta escrita particular?

A minha relação com os livros para a infância aconteceu por acidente. Não resultou duma opção ou duma particular vocação para este tipo de escrita. A minha primeira vez foi quando, sendo pároco em Marco de Canaveses, alguém sugeriu, aí por 1992, se não erro, que escrevesse uma história de Natal para oferecer a todos os que frequentavam a catequese paroquial. Hesitei, mas anuí. No Natal seguinte, repetiram o pedido, e assim por diante. Quando se completaram sete histórias de Natal, eu e os responsáveis da catequese paroquial decidimos publicar um livro com todas elas. Foi desta forma que nasceu o meu primeiro livro para crianças: A mais alta estrela. Sete histórias de Natal. Depois, o hábito fez o monge.

Escrever para crianças não é uma espécie de regresso à infância de quem escreve. Isso é impossível. Quando muito, o escritor, ao olhar a infância dos outros, desperta o pouco que lhe resta da sua própria infância. Sempre dediquei muita atenção ao modo como as crianças falam e à maneira como constroem imagens, associando-as duma forma ilógica, juntando coisas incompatíveis e ‘sem sentido’. Foi esse ‘sem sentido’ que sempre me fascinou na linguagem infantil. Ainda hoje tomo as minhas notas quando falo com uma criança ou a observo. Os meus parâmetros para escrever uma história ou um poema são sobretudo estes: recompor, à minha maneira e, com toda a certeza, de forma cruelmente infiel, esse imaginário desconexo. Recordo-me de, ainda muito jovem, ler certa poesia que parecia não fazer sentido. E de gostar dela precisamente por essa razão. O meu processo de aprendizagem nestas escritas para a infância tem-me levado a experiências diversas, mas esta preocupação pelo mistério do (sem) sentido tem sido constante. Picasso terá dito que passou a vida a tentar desenhar como uma criança. Também eu, com o devido pudor, gostaria de, um dia, escrever uma história como uma criança a conta ou escreve.

Por outro lado, nestas últimas décadas, a ilustração e o design gráfico atingem, de um modo geral, um patamar de grande qualidade. Que relação a privilegiar entre o texto escrito e o texto icónico?

Eu acho que num livro com uma história para crianças há sempre três histórias, ou melhor, três versões duma história: a de quem escreve, a de quem ilustra e a de quem faz o grafismo. Muitas vezes, esquecemo-nos do trabalho do designer gráfico… Alguém começa, normalmente é o escritor, mas pode ser o ilustrador: isso já aconteceu com algumas histórias minhas, por exemplo, com A Anja de hálito azul e com O jardim de Helena. As duas têm desenhos do José Rodrigues e as histórias foram inventadas a partir deles) e depois os outros criam o seu ‘texto’ sobre o texto inicial. Pessoalmente, e em geral, não gosto da ‘ilustração convencional’, feita por ilustradores que só fazem ilustração. Prefiro a ilustração dos pintores, escultores ou mesmo arquitetos. Não estão tão condicionados por um modelo, fazem uma abordagem mais livre, inventam mais, acho eu. Aliás gosto e não gosto da palavra ‘ilustração’. Gosto por razões históricas e culturais, pois remete para um processo de libertação do homem e de afirmação da sua subjetividade. Gosto por causa da sua relação à luz: o ilustrador ilumina a história, acrescenta-a, modifica-a, acende-a. Não gosto porque é uma palavra pesada, com um qualquer excesso dentro. A sua luz, quando excessiva, cega. As crianças de hoje têm muita sorte, a sorte que eu e os da minha geração não tivemos quando éramos crianças: têm imensos livros, belos livros, diversidade de escritas, de ilustração e de design, bibliotecas, escritores nas escolas…. Têm tudo o que, em princípio, as pode ajudar a ser bons leitores.

Os cavalos e os pássaros são metáforas recorrentes nos seus livros. E, assim, fala do arquétipo mitológico, o Pégaso, além de outros equídeos ligados à literatura e às artes visuais, como o Rocinante, o de Guernica, e ainda do Bucéfalo de Alexandre. Que significâncias dessas presenças na tessitura dos textos?

Gosto de cavalos e de pássaros. Gosto de pássaros porque voam. Gosto de cavalos pela mesma razão. A sua presença nos meus textos não tem nenhum significado particular, conscientemente procurado. Há tempos, numa escola, chamaram-me à atenção para a presença obsessiva da natureza nos títulos dos meus livros e nos seus conteúdos. Nunca tinha reparado nisso, mas não estranho. Nasci e cresci no meio dos campos, dos montes, dos animais e das plantas. E no meio das pessoas. Quer eu queira quer não, essas coisas agarraram-se à pele, são parte de mim, não as posso evitar. Escrever é carregar uma herança. Eu procuro carregar a parte que me compete. Na minha aldeia eram os animais que carregavam as coisas e eu tinha pena deles. Não aliviarei a carga para cima dos ‘meus’ animais, dos meus cavalos e dos meus pássaros. Enquanto carrego a minha própria herança, eles voam. E assim, cada um de nós faz aquilo que lhe pertence fazer…

Os afetos traduzidos em Amizade como em O crescer das árvores ou em Amor como em O jardim de Helena e em O meu primeiro livro de viagens assumem um papel redentor até em situações adversas. Como funcionam na teia romanesca?

Se alguma coisa de permanente existe nos meus textos é a amizade, julgo eu. Porventura não devia dizê-lo, mas eu acho que a amizade salva muito mais do que o amor. Em nome da amizade, nós salvamo-nos uns aos outros. Em muitas zonas do nosso país, as pessoas, quando se encontram ou se cruzam, salvam-se. E quando se zangam, deixam de se salvar. Para salvar alguém basta algo tão simples como dizer ‘bom-dia’. O amor às vezes prende, às vezes mata. A amizade, exigindo paciência e doação como o amor, deixa-se olhar ao longe. Muitas das minhas histórias são uma forma de cultivar as minhas amizades. Foram escritas para os meus amigos. Eu gosto de escrever histórias para os meus amigos, sobretudo quando eles são pequenos. Uma vez escrevi uma para um amigo grande porque ele passou muitos perigos quando fugiu à guerra e se perdeu durante muitos meses no meio da selva africana. O crescer das árvores foi escrito para um amigo grande chamado Aimable. Nos últimos anos deixei de o poder salvar porque ele voltou para o seu país, mas acho que ele deve continuar a ser grande no meio do seu povo, no Ruanda. Acredito que um dia vamos reencontrar-nos. Porque somos amigos e os amigos salvam-se uns aos outros. Um filósofo antigo dizia que para ter um amigo é preciso comer com ele uma boa medida de sal. O sal tem muito má fama, hoje, e com certa razão, mas eu gosto dele e procuro sempre que as minhas histórias tenham algum. Para o partilhar com os meus amigos.

As fábulas, na sua obra infantojuvenil, são grandemente inovadoras pela criação de atmosferas mágicas particulares bem como pela invenção de um novo figurino de personagens. Refiro-me, em particular, a A rainha dos frutos e a O Senhor Outono e o Lagarto amigo das Palavras. O que pensa da abertura das crianças a este tipo de texto?

O escritor é um mágico, tenta fazer coisas extraordinárias com as palavras. Faz com as palavras o que um mágico faz com as cartas. O escritor joga, cria efeitos de realidade que, quando conseguidos, são mais verdadeiros do que a própria realidade. A nossa cultura fez da realidade uma racionalidade, coisa dos seres racionais. Mas esta realidade mente, engana, está sempre a gerar injustiças e a sacrificar as pessoas. Quem escreve não pode sair fora da realidade, desta realidade. Mas pode olhá-la duma forma menos racionalizada, pode inventar novas formas de relação. As crianças estão, em geral, mais disponíveis para estas transposições porque ainda racionalizam pouco, têm uma linguagem ingénua e uma mente inventiva. A ligação das crianças à realidade é por isso mais sensível. Elas sabem muito bem que os frutos não falam nem se movem e que os lagartos não se relacionam com os anjos. Mas estão disponíveis para ‘fazer de conta’. As crianças criam amizade fácil com os objetos. No seu mundo acontecem coisas extraordinárias. Eu conheço uma criança que há dias me disse que, quando for grande, quer ser um tigre cinzento. Não faço a mínima ideia porque é que ela quer ser um tigre cinzento, mas é para ela, e para todas as crianças que têm esta liberdade, que eu procuro inventar histórias.

Também as biografias ocupam lugar no seu cânone de escrita para crianças e jovens. Falo de A Noite das três Luas, sobre Nun’Álvares e de O Cavalo que engoliu o Sol sobre São Paulo, sem esquecer A maçã vermelha, embora esta só diga respeito à infância de Sophia. Deveriam ser presença obrigatória nas bibliotecas escolares pela excelência das propostas apresentadas. Em que consistiu o processo geracional de cada uma delas?

Estas histórias biográficas foram todas encomendadas. Nenhuma delas foi escrita por minha iniciativa. Não gosto de dizer ‘não’ aos desafios que me lançam e por isso aceito-os quase sempre, desde que tenha tempo disponível e estejam ao meu alcance. Para além destas, escrevi também sobre a vida de santa Quitéria, de são João Baptista e de são Pedro. Estas histórias dão mais trabalho do que as outras porque exigem investigação histórica. Mas nem tudo o que lá se encontra é verdade. Há muita invenção. Normalmente, seleciono alguns factos históricos verdadeiros, ou tidos como tal, e amasso-os com coisas fantasiosas. Eu não sei se é legítimo proceder deste modo, mas não gosto de ver a verdade separada da ficção. Quero dizer com isto que, em minha opinião, há verdade na ficção e há ficção na verdade tida como tal: há muita ficção na filosofia, na ética, na política, no direito, na ciência, etc. Convencionou-se que a verdade era assunto dos filósofos e a ficção assunto dos escritores. Não estou nada convencido de que seja assim. Eu estudei filosofia e, em muitos momentos, pensei: quanta ficção existe na busca da verdade e na investigação filosófica em geral! Li imensa literatura ao longo da vida, sobretudo poesia, e, em muitos momentos, pensei: quanta verdade existe nesta escrita ficcionada! Se calhar, o meu hábito de misturar a verdade histórica dos personagens com a fantasia é um modo de me ‘vingar’ destas representações criadas pela cultura, e que levam muito a sério as leis, a política, a ciência e a filosofia e desprezam a literatura por acharem que não é coisa para ser levada a sério…

Possuidor de uma cultura vasta, bem ensilada e visível, ela escorre entre as páginas que escreve abertamente nomeada ou subtilmente enunciada nos símbolos, nas sinestesias. Ao despertar para a leitura, que cânones livrescos primeiros o fizeram experimentar a fruição do texto?

O primeiro livro que me recordo de ter lido foi As aventuras de João Sem Medo, de José Gomes Ferreira. Isto já quando frequentava o Seminário, depois da 4ª classe, pois até essa altura não havia nada para ler, a não ser o Livro de Leitura. Nem em casa nem na escola. Depois, já em pleno processo revolucionário, li os neorrealistas: Soeiro Pereira Gomes, Alves Redol, Manuel da Fonseca, Carlos de Oliveira. Mais tarde, já por opção minha, comecei a ler Sophia e Miguel Torga. Estas são, portanto, as minhas raízes na leitura. Aquilo que eu escrevo dever-lhes-á muito, quer eu queira quer não, quer tenha disso consciência ou não. Eventualmente mais a estes, lidos no final da infância e durante a adolescência, do que aos outros autores que ao longo da vida fui selecionando. O ‘prazer do texto’, continuando em Barthes, chegou-me através de muitas fontes, apesar de nunca ter sido um leitor inveterado. Li sempre relativamente pouco, mas com intensidade e mesmo paixão. Ainda hoje é assim. E não falo só do âmbito da literatura. Também a filosofia me fez experimentar o prazer do texto, sobretudo através dos Diálogos, de Platão. E a Bíblia, sobretudo em alguns livros do Antigo Testamento. E já que se fala em cânones livrescos, sabem qual é o meu autor de eleição? Se isso fosse possível, era como Gabriel García Marquez que eu gostava de escrever…

Entrevista conduzida por Manuela Maldonado (Originalmente publicada em Solta Palavra 18)

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