Considero-me uma experimentalista…

Nasci em Lisboa no ano de 1973. Formei-me em Design de Equipamento pela Faculdade de Belas Artes de Lisboa mas desde pequena que adoro desenhar.Hoje, sou ilustradora, e os meus dias são preenchidos por ilustrações nas paredes, em cartazes, nos livros, e por tudo o mais que está por ilustrar, pelas risotas com os meus filhos e pelas passeatas de bicicleta.O que me inspira? O cheiro do mar, o calor da areia, as cores das flores, o vento no cabelo, os brilhos nos olhos, abraços apertados, beijinhos, as canecas de chá… A vida!

1. Antes de mais: porque trocaste o teu nome próprio [Patrícia Alves] pelo pseudónimo [Bolota]?

Bem, posso dizer-te que isso foi mesmo uma decisão tomada de um dia para o outro. Gosto muito do meu nome, mas um dia senti que ele não representa o que quero mostrar quando ilustro. Era só um nome. Agora, é um nome com uma imagem associada (inevitavelmente).

Bolota representa para mim a minha forma de estar mais natural, mais criativa. Dissocia o meu EU em constituintes mais simples. Para as pessoas, representa uma imagem, uma interrogação, e isso é divertido porque leva à imaginação.

2. Fala-nos um pouco do teu percurso como ilustradora?

A minha formação é em Design de Equipamento. Sempre adorei desenhar, mas não me imaginava a ilustrar quando iniciei o curso. Naquela altura os ilustradores eram poucos.

No dia em que nasceu a minha filha mais velha, decidi começar a fazer profissionalmente uma das coisas que mais gostava, ilustrar. Na altura tive a sorte de começar a colaborar com ateliers direccionados para a ilustração e, aí, aprendi diversas coisas sobre design com ilustração, tal como pode funcionar a ilustração em livros, em cartazes, em anúncios… e cresci. Cresci como designer gráfico, mas, essencialmente, como ilustradora. De repente (bem, não assim tão de repente) o meu trabalho é ilustrar, ou seja, é: observar, experimentar, criar e ilustrar.

Como ilustradora, considero-me uma experimentalista, ou uma “diversificalista” (seria assim que se escrevia se a palavra existisse), alguém que gosta de experimentar e diversificar nos materiais e no resultado que esses materiais provocam.

3. Como é, habitualmente, o teu processo criativo?

Que técnicas e materiais são os teus preferidos?

Nunca sei muito bem o que responder quando me perguntam isso porque é algo tão natural que nem sinto os passos que dou nesse processo. Mas é claro que os dou.

Se for um livro, uma ilustração de uma história ou um conto, começo por ler os textos e, provavelmente isto acontece com toda as pessoas, quando os leio “vejo” imagens, muitas imagens. Transformo imediatamente os textos em imagens na minha cabeça, mas não me fico pelas primeiras imagens, volto a ler os textos, as (milhares de) vezes que forem precisas, e volto a vê-lo, em imagens, talvez o dobro ou o triplo dessas vezes (das milhares).

Nesta altura, normalmente preciso de me afastar do meu espaço de trabalho, preciso de arejar. E saio. Vou observar, sentir, inspirar… Quando volto, esboço, rabisco, uso cores, experimento materiais, até chegar a um acordo. Um acordo entre o material que tenho na mão e a imagem que tenho na cabeça.

Só então começo realmente a ilustrar.

Sou, de certa forma, simplista na ilustração. Sinto que, tal como o texto, ainda que por vezes bastante descritivo, tem sempre algo em si que não é descrito. A ilustração também deve ter. Numa página de uma história para ilustrar, pode estar todo um “mundo” a acontecer, mas eu ilustro aquele momento, aquele pormenor. Como se tirasse uma fotografia focada só naquele ponto, tudo o resto não é visivel, mas está lá – essa é a parte da imaginação do leitor. Para mim a ilustração não é finita em si, tem continuidade em cada “utilizador”.

Ao longo do meu percurso, fiz questão de experimentar não só os materiais com que ilustrar, mas também os diferentes materiais em que ilustrar – o digital, os papeis, as paredes, os tecidos, madeira, metal…

Na verdade, todos os materiais me dão imenso prazer, mas ultimamente sinto-me mais próxima daqueles que têm a habilidade de riscar.

4. Qual o maior desafio que já enfrentaste ou que gostarias de enfrentar em termos profissionais?

Já experimentei alguns desafios. Posso dizer-te que qualquer proposta que me chega às mãos eu sinto-a sempre como um desafio. Mas, neste momento, o maior desafio que quero enfrentar é a edição de um projecto meu, uma coleção de livros ilustrados de aventura, gastronomia e curiosidades do nosso país. O primeiro volume já está pronto para “sair da gaveta”.

Este sim, seria o meu próximo grande desafio.

A propósito, estou à procura de editor. J

5. Brevemente, vais editar um livro “a solo”, escrito e ilustrado por ti. Sabemos que tens outros do mesmo perfil na gaveta. Qual é a diferença de outros livros de que és apenas ilustradora? Podes desvendar um pouco do que se trata?

É verdade, vai ser o meu primeiro livro a “solo” editado. Nestes últimos meses tenho sido muito produtiva criativamente e às vezes apetece-me mais do que só ilustrar. Apetece-me ilustrar o que vejo, o que sinto e de repente aos meus desenhos juntaram-se palavras e às minhas palavras juntaram-se desenhos. Básicamente é essa a diferença, e o resultado é um Todo. Eu estou ali nas palavras (mesmo quando elas não existem) e nas imagens.

É um grande prazer.

Tenho sim, alguns (pelo menos mais que um), projectos na gaveta, e espero brevemente tirá-los cá para fora.

Este livro que vai ser editado pela editora Trinta por Uma Linha, chama-se “Amar”, e fala, em imagens e palavras, de uma forma muito simples, sobre esse sentimento que nós, humanos, temos por vezes a habilidade de o tornar tão confuso e complicado.

6. Com o tem sido a experiência do design e paginação de A Casa do João, dos quais tens sido responsável?

Só te posso dizer que tem sido formidável. É na verdade a minha primeira revista de continuidade, e já vamos para o Nº 5, mas cada número é um novo desafio em termos gráficos. Estou muito contente por fazer parte da construção da revista, diga-se, a única em Portugal de literatura Infantil e Juvenil, e muito satisfeita com o resultado. O feed-back sobre o design e conteúdos tem sido excelente!

É sem dúvida um projecto para continuar!

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