Quem não quer ser lobo…

Sem que eu procurasse ou dele tivesse alguma notícia, caiu-me nas mãos um livro que me despertou interesse imediato, por causa do título ou tema: lobos. Sempre gostei de lobos, mesmo se lobos maus. Estou a falar do livro The Wolf Wilder – A Encantadora de Lobos, de Katherine Rundell (Individual – Lápis Azul, Lisboa 2015, 322 p.).

«Algumas palavras sobre os encantadores de lobos», a modo de introdução, dizem-nos que «os encantadores de lobos são quase impossíveis de identificar», mas «existem pistas», a saber: «a mais de metade falta parte de um dedo, o lóbulo de uma orelha, um ou dois dedos dos pés»; «usam ligaduras limpas da mesma maneira que as outras pessoas usam meias», «exalam um ténue odor a carne crua». Na Rússia, há bandos de comerciantes de lobos que caçam filhotes recém-nascidos que são vendidos a aristocratas ricos, que os tratam e “domesticam”. Os lobos, porém, não nasceram para viver em cativeiro: «um lobo enlouquece sempre que é aprisionado, e com o tempo acaba por arrancar e devorar uma pequena parte de alguém que não contava ser devorado». Quando isso acontece, sobretudo a um aristocrata, é preciso pôr cobro a essa situação. Ora acontece que os «aristocratas russos acreditam que matar um lobo «acarreta uma espécie muito peculiar de azar»; «diz-se que quem mata um lobo verá a sua vida a começar a extinguir-se», «como tal, um lobo não pode ser morto a tiro, nem à fome; em vez disso é empacotado como um embrulho por um mordomo nervoso e enviado para o encantador de lobos».

Este livro, cuja ação se situa há um século atrás, no declínio do czarismo russo e no dealbar da revolução bolchevista, fala-nos das aventuras e desventuras de uma menina russa chamada Feodora, mais conhecida por Feo, que, com a sua mãe, Marina, tem como ofício «embravecer os lobos», com quem vive e convive. Acontece que o general Rakov, extasiado pelo exercício discricionário e doentio do poder, não gosta de lobos nem de quem os encanta, e ameaça e persegue Marina e a sua pequena filha, acabando por levar presa a mãe e pôr em fuga a menina. Esta, aliada a um jovem soldado desertor e a um jovem marxista, inicia uma caminhada, a que vai agregando uma pequena multidão de crianças e não só, para libertar a mãe da prisão de S. Petersburgo. As peripécias são abundantes e nelas os lobos assumem sempre um papel relevante, ora adensando os episódios, ora fazendo avançar a ação.

Neste livro as personagens têm uma força inaudita, tendo de lutar com a neve, sempre presente, contra a injustiça omnisciente e em favor da solidariedade. Percebe-se que, a seu modo, as crianças são (sempre) o princípio de qualquer revolução, porque resistem, persistem e insistem em concretizar sonhos de liberdade e de inquietude:

«E, agora, prefiro ser corajosa. Temos de dizer, não podes roubar-nos mais nada. Uma pessoa sozinha não é capaz de fazer isso, mas todos nós, nós, os miúdos, podemos recuperar as nossas vidas. Podemos recuperar o nosso medo. Não sei se venceremos, mas temos o direito detentar. Os adultos querem que fiquemos calados e sejamos cuidadosos, mas temos o direito de lutar por um mundo em que queiramos viver, e ninguém tem o direito de nos dizer que temos de ficar em segurança e ser ajuizados. Eu digo que, hoje, lutamos!»

As crianças como os lobos! Indomáveis! Embravecidas!

Uma narrativa muito bem escrita, com um estilo audaz, estranhamente divertida, feroz e implacável com a injustiça, na continuação de  RooftoppersVagabundos dos Telhados, best-seller com que a autora ganhou o Waterstones Children’s Book Prize e também o Blue Peter Award, em 2014. [JMR]

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