O certo pelo incerto, o “haver” pelo prazer

Volvidos 10 anos desde que nos brindou com o Rondel de Rimas para Meninos e Meninas, o primeiro livro de poemas, nas entrelinhas o público já conheceu mais de 50 obras de João Manuel Ribeiro, destinadas preferencialmente ao público infantil e juvenil. Assume-se um andarilho que gosta de andar de um lado para o outro, desde que esteja sempre bem acompanhado. Mas haverá melhor companhia do que a dos livros? Alguém que percorre connosco as páginas da vida e nos leva pelo mundo sem pedir nada em troca? Disposto a ser tocado e trocado a qualquer instante e momento, sem contestar? – perguntamos nós. Não, mas é claro que não! Os livros e o João Manuel confundem-se! Desde 2008 que percorrem caminhos paralelos. Com mais de 10 obras recomendadas pelo PNL – Plano Nacional de Leitura, o autor apenas pede aquilo que a vida lhe quiser dar. Sem grandes ambições, confessa que nesta curta, mas preenchida carreira, já mudou muito e o mundo dos livros também não escapou às mudanças. Vislumbra um futuro sorridente, com edições estrangeiras prontas a sair da gaveta e deixa-nos a promessa de “também” escrever, em breve, para adultos!

 – 10 anos e agora? O que fica do que passou e o que pode o público esperar para os próximos 10?

Isso mesmo! 10 anos e agora? Do que passou ficam os livros com as suas histórias, os seus poemas, as suas brincadeiras e ficam também os muitos encontros com alunos em escolas e bibliotecas de quase todo o país. Creio, sinceramente, que isto é o mais importante e assinalável destes 10 anos de atividade literária, destinada sobretudo ao público infanto-juvenil.

Dos próximos 10, além de mais livros e mais encontros com alunos, não sei o que pode esperar-se. Talvez o melhor seja não esperar nada mais. O que vier, de vida literária, será bem-vindo.

 – É escritor mas é, sobretudo, poeta. Ser escritor está ao alcance de qualquer um, mas e poeta? Como é ser poeta?

Sim, sobretudo poeta, porque a poesia é o que melhor me diz e a forma em que melhor me digo e capto a estranheza do mundo. Não há “uma” forma de escrever poesia e/ou de ser poeta e é difícil encontrar uma definição do que seja um poeta, a não ser que seja para dizer o que o poeta/a poesia não é. Isto é relevante porque permite-nos dizer que tal texto é poético ou não e que o seu autor é um poeta e não simplesmente escritor. Considero-me um poeta, mesmo quando escrevo contos ou narrativas, porque tento conferir a tudo o que escrevo uma forte densidade metafórica. Reconheço que há romances que são um longo poema. Dito isto, acrescentaria que o que seja ser poeta foi magistralmente dito por Florbela Espanca, no soneto “Ser Poeta” (popularizado pelos Trovante, com o título “Perdidamente”).

– Como se sente por ao longo destes 10 anos ter quase 50 obras no mercados e 1/4 dos seus livros serem recomendados pelo PNL? Quando se sabe que as recomendações são feias por uma comissão científica e isenta e cujos critérios estão relacionados com a qualidade da escrita…

A recomendação dos livros pelos responsáveis do Plano Nacional de Leitura é apenas um reconhecimento da qualidade dos livros que escrevo. Claro que fico agradado por ver tantos livros recomendados, mas entendo isso apenas como uma distinção ao trabalho realizado, não lhe atribuindo nenhum ênfase especial. Os livros mais (re)conhecidos, até internacionalmente, como por exemplo o “Meu avô, rei de coisa pouca” e o “Poemas para Brincalhar” não estão recomendados e nem por isso deixaram de fazer o seu caminho. De qualquer modo, fico agradado e honrado por ter tantos livros recomendados pelo PNL.

 – É a escrita que surge na vida do JMR ou foi atrás dela?

Ambas as coisas. A escrita surge na minha vida, em primeiro lugar, pela audição das cantilenas, lengalengas e histórias de matriz tradicional que me contou o meu avô e só mais tardiamente pelo acesso aos livros. Daí a escrever, a querer replicar os modelos com os quais contactei e encontrar o “meu” caminho foi um passo inevitável, mas também atrás do qual corri, aperfeiçoando as técnicas de escrita e, sobretudo, “aguçando” olhar para entrever o novo e inédito em cada coisa.

 – O seu percurso está inevitavelmente ligado às escolas. Fale-nos deste contacto olhos nos olhos com os leitores…

Repito-o: eu gosto de me encontrar com os (meus) leitores, em escolas e bibliotecas. Gosto do encontro, olhos nos olhos. Gosto de apalpar o pulso à adesão ao que escrevo e isso percebe-se pelas perguntas que me fazem, pelos trabalhos que me apresentam, pelo entusiasmo com que me recebem e falam comigo. Gosto de pensar (e constatar) que os pequenos leitores são inteligentes e capazes não só de identificar as personagens e as características de um texto, mas são capazes de fazer inferências e pensar autonomamente a partir do texto lido.

Gosto ainda de visitar escolas, porque, não raras vezes, os episódios, as palavras e as perguntas que me fazem tornam-se matéria-prima para novas histórias, como já aconteceu com alguns contos que escrevi e publiquei.

 – Como é ser escritor em Portugal e viver só disso? Era professor universitário, mas agora dedica-se em exclusivo ao mundo literário, com a sua editora também…

Em Portugal (e se calhar em qualquer outra parte do mundo) é complicado viver só da escrita, em geral, e ainda mais difícil viver só da escrita para a infância. A minha dedicação exclusiva à literatura é uma opção arriscada, mas consciente. É, em certo sentido, trocar o certo pelo incerto, o “haver” pelo prazer. Trata-se de, como costuma dizer-se, ter o prazer de trabalhar no que se gosta. E quando isso acontece as dificuldades superam-se.

 – O que mudou desde o início até agora? O que mudou no mundo dos livros e o que mudou em si?

Mudaram muitas coisas.

Em primeiro lugar, mudei eu: cresci, aprendi a escrever melhor (acho), aprendi a respeitar os pequenos leitores e as suas especificidades e exigências, aprendi a valorizar e a desvalorizar detalhes e opiniões. Aprendi a estar com os pequenos leitores. Aprendi a situar-me no “meio literário”.

Em segundo lugar, o mundo dos livros, e concretamente dos livros infantis, mudaram muitas coisas: nasceram e morreram muitas novas editoras de literatura para a infância, aumentou a quantidade de pessoas a escrever para crianças, houve um maior cuidado na ilustração, com muitos novos e bons ilustradores, e no grafismo dos livros. Foi decrescendo a importância e/ou o lugar do texto face à ilustração ou imagem (mesmo) nos livros de literatura infantil e (até) juvenil. Assumiu-se o álbum ilustrado (picture book) como o predileto dos leitores, mediadores e do próprio mercado livreiro. Aumentaram também as traduções de bons livros estrangeiros para crianças e não só.

– JMR é definitivamente um escritor de literatura infanto-juvenil, mas também já lançou algumas obras para adultos. Já pensou em dedicar mais da sua obra aos mais velhos? Ou escrever para crianças é mais desafiante e exigente?

Escrever para crianças é muito exigente, pela atenção que é necessário dar-se ao que se escreve, na medida em que tem de haver um ajustamento entre a escrita e as capacidades de “compreensão” daqueles para quem se escreve. Com isto não quero dizer que haja temas tabus ou inapropriados para crianças, mas apenas que o tratamento de tal tema, num livro para crianças, reclama um trabalho (sensibilidade?) do escritor/poeta que, em certo sentido, o (des)limita.

Há muitos textos (poemas, contos, narrativas) que escrevi para crianças que podem inscrever-se seguramente no âmbito do que se designa de literatura para adultos. Mas eu guardo o desejo de, um destes dias, escrever um romance (para adultos, mas não só). Não sei se terei tempo e disponibilidade interior para o fazer, mas gostaria…

 – Qual a importância da leitura nas crianças? Tem um filhos de 2 anos…lê historinhas ao deitar ou “casa de ferreiro, espeto de pau”‘?

Leio todos os dias para o meu filho, poemas e pequenas histórias. Com ele sentado no meu colo, às vezes com a cabeça recostada no meu ombro.

Estou convencido que dois ou três minutos de leitura diária para os mais pequenos é absolutamente fundamental, por múltiplas razões: afetivas, emocionais, lúdicas, mnemónicas, vocabulares, linguísticas, cognitivas, entre tantas outras. Sobre cada uma destas vantagens da leitura, poderia dissertar longamente, mas o melhor mesmo é testá-las ou comprová-las na realidade: lendo para/com nossos filhos.

– Fale-nos do processo de escrita: 90% inspiração e 10% de transpiração ou afinal é preciso transpirar muito?

Essa percentagem é um chavão, que se tornou um lugar comum. No entanto, é verdade que há inspiração, aquele momento em que a ideia (te) nasce e a colocas no papel, e depois há um trabalho necessário de revisão e aperfeiçoamento para que o texto possa captar a atenção graciosa do leitor. Há um poema da Teresa Guedes, intitulado Rimar, que  costumo citar para mostrar como é ou como se faz o processo de escrita e que diz: [A professora] “Explicou-nos que campeão é aquele que escreve / um poema ao sabor do prazer e da emoção /E só no fim o vai rever e aperfeiçoar, até ele tilintar.”

Voltando à percentagem, há vezes em que o texto fica como saiu e ganha a inspiração; outras há em que do que foi escrito ao sabor do prazer e da emoção resta apenas a ideia e ganha a transpiração.

O que me parece importante salientar é que, na maioria dos casos, escrever, mesmo com muita inspiração, é sempre trabalhoso, exigindo quase sempre o labor de rever e aperfeiçoar. Mas este é um trabalho que, a mim, dá-me imenso prazer.

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