A voz da razão nem sempre tem razão

JOÃO VAZ DE CARVALHO nasceu no Fundão, Portugal, em 1958. No início dos anos 80 trabalhou na oficina do Mestre Vasco Berardo, em Coimbra. Mais tarde, já em Lisboa, dedicou-se em exclusivo, primeiro à pintura e depois também à ilustração. Desde então, integrou dezenas de exposições, individuais e coletivas, e participou em várias feiras de arte contemporânea. Simultaneamente, na qualidade de ilustrador, colaborou com muitos dos títulos da imprensa portuguesa e ilustrou dezenas de   livros, tendo títulos publicados em Portugal, Espanha, França, Itália, Suíça, Inglaterra, Brasil, China e Coreia do Sul. Participou também em inúmeras exposições de referência na área da ilustração, em Portugal e no estrangeiro. Realizou projectos em áreas distintas, que vão desde a cerâmica até ao desenho de marionetas para teatro. As suas inconfundíveis figuras humanas têm conquistado diversos prémios, entre os quais se destacam: 1º Prémio Ilustrarte 2005, Portugal; 1º Prémio Tapirulan 2011, Itália; 1ºPrémio Caricatura World Press Cartoon 2011, Portugal; Communication Arts  Award of Excellence 2012, EUA; White Ravens 2013, Alemanha. Grand Prix of The Golden Pen of Belgrade Award, 2013, Sérvia; 3×3 Winner, 2013, 2014, 2015, 2016, 2017, EUA; Creative Quarterly  Winer, 2012, 2013, 2014, 2015, 2016 e 2017, EUA; Hiii Illustration Jury Award 2015, China. Applied Arts Photography & Illustration 2017 Winner, Canada.

1. Quem é o João Vaz de Carvalho em 7 palavras?

Não sei como responder a essa pergunta. Estou mais habituado às imagens…

2. Fale-nos um pouco do seu já reconhecido percurso e sobre os trabalhos que agora está a fazer… 

O meu longo caminho começa nos anos 80 quando realizava exposições   quase consecutivamente. Na altura essa era a única forma que tinha de divulgar o meu trabalho. Fazia-o também   por uma necessidade real de sobrevivência pois desde o principio tive o sonho (e a ambição) de me dedicar por inteiro à pintura e de viver do meu próprio trabalho. Percorria o país de norte a sul à procura de galerias e de outros espaços que me abrissem as portas para fazer exposições ou que aceitassem algum tipo de colaboração. Essa busca foi importante porque fui conhecendo muita gente e, ao mesmo tempo, ganhando uma noção mais real das dificuldades que me esperavam e do modo como as ligações no meio artístico funcionavam. Depressa percebi que era fundamental ter o apoio de alguém bem inserido no meio, que me pudesse proporcionar as condições mínimas para pintar com alguma tranquilidade e, se possível, vendesse o trabalho que produzia.  Como era em Lisboa que quase tudo acontecia, naturalmente foi lá que as melhores possibilidades surgiram. A Galeria Altamira, uma referência naquela época, felizmente abriu-me as portas a uma colaboração regular e depois tudo passou a acontecer de uma forma mais  profissional,  com a realização de exposições individuais  e coletivas bem organizadas,  bem como com o  acesso e  participação em  feiras de arte que proporcionavam uma grande visibilidade.

Relativamente ao que estou a fazer neste momento, está patente até finais de outubro uma exposição minha de trabalhos independentes, de pintura e desenhos, na Galeria Trema, em Lisboa, intitulada “Lições de Voo”. Também os primeiros trabalhos de um novo projeto independente, já estão a nascer e deverão resultar numa nova exposição lá mais para 2018.

Livros, tenho alguns em mãos em várias fases, dois deles  prestes a sair, “O Rapaz do Nariz  Comprido e Outros Contos” de  Luísa Ducla Soares, a  ser publicado pela “Livros Horizonte” e um outro de poemas musicados para crianças, de José Jorge Letria, cantados por Daniel Completo a ser  publicado pela “Canto das Cores”. Estou também a terminar os esboços para um texto de um autor sul coreano, Rury Lee, que será publicado na Coreia do Sul em 2108 pela mão da editora  Book Good Come. Há mais alguns desafios, designadamente a ilustração de um texto de Maria da Conceição Vicente, para a Trinta por Uma Linha, este ainda numa fase embrionária.

3. Quando e como percebeu o seu talento para as artes visuais? Só começou a pintar aos 27 anos…

Digamos que esse “meu talento” tem vindo a construir-se a pouco e pouco.  Não houve um momento “ena, eu sou bom a fazer isto!”  mas sim uma grande determinação em dedicar-me a fazer algo que realmente me apaixonava.  Desde sempre tive a ideia fixa de fazer algo original e independente a que me pudesse entregar de alma e coração. Mas a tomada de consciência de que poderia escolher o caminho da pintura como forma de expressão foi bastante tardia e pouco provável. É preciso ver que nessa altura a minha experiência era muito limitada pois apenas possuía alguma na pintura cerâmica.

Para se compreender melhor esse meu começo, devo dizer que tinha uma a profissão que não deixava adivinhar a escolha que viria a fazer.  Trabalhava num estúdio de gravação, um trabalho que apesar de   interessante apontava um caminho muito diferente.  Mas como não me sentia realizado, veio o momento em que me dispus a correr os riscos e abandonei tudo e fui para casa pintar. Aí aprendi uma lição, a de que a voz da razão nem sempre tem razão, às vezes a da paixão tem mais.

4. O que mais o realiza: pintar ou ilustrar?

Ambas são muito gratificantes, mas requerem abordagens diferentes.

 A pintura dá-me uma liberdade muito grande escolha, posso decidir qual a história visual que quero contar. Tal como um escritor opta por contar uma história e não outra, eu escolho também o meu rumo através da pintura, podendo redefinir constantemente o caminho a seguir. Muitas vezes o ponto de chegada não foi previsto e nem por isso, no final, o trabalho deixa de ser coerente e válido. Esse é um dos aspetos mais sedutores do trabalho livre. Digamos que estou apenas entregue a mim próprio e às minhas limitações.

 No caso da ilustração é bastante diferente, devo usar a criatividade para construir imagens com base num argumento de outro autor, um texto por exemplo, estando assim perante   um mundo não necessariamente próximo do meu e ao qual devo acrescentar a minha  própria interpretação visual. Pela sua natureza é um trabalho mais limitador, podendo, no entanto, ser muito estimulante quando se encontra uma boa sintonia com o texto e o mundo imaginário do escritor.

5. Partindo do pressuposto de que a ilustração infantil é considerada uma forma de expressão gráfica que acompanha e integra o desenvolvimento da personalidade da criança, que análise faz à influência que poderá ter, por via do seu trabalho, juntos dos mais novos? É uma grande responsabilidade…?

Para mim o princípio subjacente à criação de qualquer imagem é o do prazer. Tudo o resto resulta disso.  Tento fazer o meu trabalho de forma honesta dando o meu melhor.  Se uma ilustração minha adquire a capacidade de tocar a sensibilidade das crianças, isso deve-se à verdade que ficou contida nas imagens e nunca a qualquer fórmula absurda para  lhes chegar perto. Não acredito nisso. Só me sinto responsável pela sensibilidade que sou capaz de despertar ou não.

6. É possível falar de bons e maus ilustradores? Como avalia a ilustração que se produz em Portugal? Afinal de contas estamos a falar de uma forma de expressão artística que tem em Portugal e na Europa tradições ancestrais…

Sim, acho que há boa e má ilustração, tal como em qualquer outra área, é natural.

A ilustração em Portugal tem tido um desenvolvimento incrível na última década, o que é muito estimulante. Julgo que há uma boa razão para isso, é que a qualidade do trabalho que se produz por cá, está ao nível do que melhor se faz no mundo. Um país com a nossa escala possui uma quantidade impressionante de ilustradores excecionais. Não sei se isso tem paralelo em outros países.  Há muito tempo que a ilustração portuguesa chamou a atenção de editoras estrangeiras. Esse interesse tem-se concretizado na publicação do seu trabalho nos mais variados países e em muitos idiomas.  Também   algumas editoras portuguesas evoluíram muito, destacando-se por uma cada vez maior preocupação com a qualidade estética dos livros que publicam. Desta forma vêm-se afastando de uma produção de qualidade medíocre que vinha dominando e que relegava a ilustração para um mero papel acessório. A participação destas editoras portuguesas nas feiras internacionais tem sido regular e isso também tem contribuído para uma maior visibilidade da nossa ilustração. É significativa a constante atribuição de prémios ao trabalho de ilustradores portugueses nos mais diversos e prestigiados concursos por todo o mundo. Não se trata de casos esporádicos. Acontece constantemente e já deixou de ser notícia.  A ilustração portuguesa está de muito boa saúde.

 7. Como foi ter ilustrado “A Casa do João” de João Manuel Ribeiro?

A Casa do João é uma evocação das memórias da infância que nos é passada sob a forma de lengalengas.  Depois de ler os divertidos textos de João Manuel Ribeiro e de deixar repousar as ideias, senti que queria fazer algo mais despojado do que habitualmente vinha fazendo. Resultou num conjunto de ilustrações muito limpas e de rápida apreensão. O fundo imaculadamente branco do papel sublinha o desenho a lápis subjacente à imagem e expõe algumas características e hesitações na construção desenho.  Foi uma abordagem nova   e que ainda hoje utilizo por vezes nos meus trabalhos.

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