O Museu Marítimo de Ílhavo

Ó mar salgado, quanto do teu sal

São lágrimas de Portugal!

Por te cruzarmos, quantas mães choraram,

Quantos filhos em vão rezaram!

Quantas noivas ficaram por casar

Para que fosses nosso, ó mar!

Fernando Pessoa [Mensagem]

A história de Portugal enquanto nação e o mar que banha a sua orla costeira encerram um laço com centenas de anos de existência. Assim se justificam as descobertas das rotas marítimas para a Índia, através de Vasco da Gama em 1498, e para o Brasil, pela mão de Pedro Álvares Cabral em 1500. Estes feitos extraordinários contribuíram para que um país tão pequeno em termos de dimensão territorial se engrandecesse ao nível de nações como Inglaterra, França ou Espanha e deixasse a sua assinatura naquela que foi a Era dos Descobrimentos. As viagens das nossas armadas lusitanas, essas, eram feitas a bordo de caravelas e de naus que possuíam a robustez e a resistência essenciais à navegação por entre mares revoltos e intempéries meteorológicas de todo o tipo.

A nossa relação com o mar contempla ainda uma forte vertente piscatória, a qual ocupou, empregou e alimentou um elevado número de gerações que dependiam do peixe para viverem. Não é preciso procurar muito para que alguém nos diga que, em tempos, lá iam as famílias para as barras da nossa orla costeira acenar aos homens que partiam em longas viagens para pescar uma espécie que, segundo o ditado lusitano, substitui o cão enquanto fiel amigo do homem: o bacalhau. Estas expedições pelo oceano Atlântico em direção ao norte do globo em busca do bacalhau eram autênticas viagens de superação, um pouco como o eram as cruzadas de, por exemplo, Vasco da Gama. Mas enquanto o maior troféu das viagens efetuadas há algumas centenas de anos era a descoberta de território ainda por reclamar, a maior vitória das gentes que partiam para a pesca do gadus morhua era o regresso a casa com vida e com os porões cheios de pescado.

O Museu Marítimo de Ílhavo é um repositório de memórias e de artefactos relativos a esta arte, ao mesmo tempo que homenageia as construções e todos aqueles que estiveram, ou estão ainda, ligados à atividade piscatória. Para além de uma sala inteiramente dedicada a uma embarcação que servia o propósito da captura de pescado à linha, tem ainda uma sala inteiramente dedicada às diversas fainas agromarítimas pertencentes à ria de Aveiro. Na primeira, a denominada Sala da Faina/Capitão Francisco Marques, encontra-se um barco em tamanho real que retrata a dimensão e a aplicação dos seus utensílios na prática da pesca à linha – o Faina Maior. Este modelo em exposição representa o navio típico das primeiras décadas do século XX (vinte) e contempla várias componentes que lhe emprestam o máximo realismo possível, como são o caso da escotilha do porão, a gaiúta ou o parque de pesca, permitindo ao visitante subir a bordo e sentir a experiência de navegar correntes e marés ao leme do Faina Maior. Caminhando ao longo dos largos metros do convés fabricado em madeira, é possível observar elementos e utensílios tão diversos como redes, pipas de sal ou âncoras. Mas o que mais dá nas vistas são os pequenos dóris que se encontram empilhados e armazenados no veleiro. A presença destes pequenos barcos a bordo da embarcação principal prende-se pelo facto de que a pesca do bacalhau se podia realizar de duas formas: a bordo do veleiro e em conjunto com os outros homens ou a bordo de um dóris, que se afastava da embarcação e colocava o pescador entregue à sua própria sorte e perícia. Neste último caso, o dóris afastar-se-ia da embarcação-mãe por largas dezenas ou centenas de metros e apenas voltaria, horas e horas depois, repleto de pescado. Há relatos de pescadores que partiram solitários na busca de bacalhau e não mais regressaram ao veleiro ao qual pertenciam, tal pode ser a imprevisibilidade dos oceanos relativamente às intempéries ou ao nevoeiro. Descendo do Faina Maior e voltando ao trajeto que transporta o visitante pelo museu, assistem-se nas laterais desta sala às representações do que não se encontra na embarcação. A título de exemplo, a ala esquerda demonstra os espaços que ficariam por baixo do convés, sendo estes o rancho, o porão da salga e ainda a câmara dos oficiais. Do lado oposto, a ala direita conta a narrativa de uma viagem à pesca do bacalhau e retrata, num primeiro momento, a largada do navio, seguindo-se a faina através de pequenos dóris e terminando no regresso do navio à barra de origem. Toda esta história é representada com fotografias e objetos relativos a cada um dos seus três capítulos.

Prosseguindo a visita ao museu, entramos numa outra sala onde nos é possível observar diversos barcos em tamanho real – a Sala da Ria. Esta coleção tenciona mostrar as embarcações típicas que navegaram ou ainda navegam, em alguns casos, os canais da Ria de Aveiro. De entre as quais, destacam-se não só os mais aclamados moliceiro e saleiro, mas também uma bateira-erveira ou um veleiro desportivo. Todos os exemplares são representativos de atividades que são, ou foram um dia, traço característico desta região aveirense. A produção e o armazenamento de sal são feitos nas salinas aveirenses nos dias que correm, mas o saleiro não é mais utilizado para o seu transporte. O processo de extração deste mineral representa ainda uma atividade económica da cidade de Aveiro, mas o desenvolvimento de estruturas e de meios remeteu o saleiro ao esquecimento. Já o moliceiro, que antigamente era utilizado na apanha e no transporte do moliço, foi transformado em barco de passeio e é, hoje em dia, passagem obrigatória para os turistas que visitam a cidade de Aveiro. As proas destas embarcações são, no entanto, autênticas telas de arte pintadas a óleo e retratam diversos costumes e expressões populares. Para além de contemplar as diversas embarcações presentes na Sala da Ria, podemos ainda observar um mini estaleiro com alguns moldes que auxiliaram a construção das mesmas.

Somos então convidados a subir ao andar de cima para dar continuidade à descoberta de histórias relacionadas com mares já antes navegados. A próxima página da visita ao Museu Marítimo de Ílhavo é escrita na Sala das Conchas e Algas, espaço inteiramente dedicado a uma enorme e vasta coleção doada à instituição por Pierre Delpeut em 1965. Aqui, o visitante pode observar diversos seres marítimos que certamente farão as delícias dos mais novos, como são os casos das estrelas do mar, dos cavalos marinhos ou dos búzios. Para além dos elementos que se encontram visíveis nos mostradores da sala, as diversas gavetas disponíveis encerram em si autênticas obras de arte, como o são as coloridas algas e plantas marítimas arquivadas e conservadas em papel. A juntar a tudo isto, são merecedoras de destaque a grandeza deste espaço e a forma como a luz natural invade e embeleza a sala e o seu conteúdo.

A maré que conduziu até à Sala das Conchas e Algas o barco que transporta a nossa curiosidade, toma um outro rumo e faz com que ancoremos na Sala dos Mares. Esta exposição retrata aquela que é a vocação marítima das gentes ilhavenses e documenta a forma como ocorreu a sua proliferação ao longo das costas lusitanas. Nas suas paredes, o visitante pode observar as histórias e as artes que permitiram que estas pessoas procurassem e se estabelecessem em diferentes praias que se revelavam bons locais para pesca. Esta essência do povo ilhavense e o barco enquanto seu património cultural permitem que, para além das embarcações que lhe eram muito próprias, se possam contemplar outros modelos náuticos característicos da tradição nacional. Desta forma, miniaturas à escala de veleiros, arrastões, naus, caravelas e navios, por exemplo, encontram-se expostos nos muitos mostradores da Sala dos Mares e convidam a um olhar atento para que se perceba o nível de detalhe empregue nestas autênticas obras de arte. E antes de concluir a passagem por este espaço, numa pequena divisão que complementa a história que aqui nos é apresentada, podemos ainda recordar os instrumentos e as técnicas de navegação utilizadas pelos pescadores durante o antigamente. O astrolábio, enquanto representante maior da navegação astronómica, e os rádios, como representantes da navegação eletrónica, são dois dos diversos utensílios presentes neste memorial.

Aproximava-se a altura de ficar a conhecer a secção dedicada exclusivamente ao bacalhau, de quem o Museu Marítimo de Ílhavo se mostra tão próximo, mas a Sala das Artes pede que percamos largos minutos a admirar as obras nela presentes. O ambiente silencioso e a meia luz, não só realça os traços e a beleza dos diversos quadros e pinturas, como também acentua as sombras e o delineado das esculturas expostas. Conforme nos é transmitido, o Museu pretende celebrar a arte, a linguagem dos artistas e o seu discurso plástico. E é exatamente isso que o visitante pode fazer nesta sala. Celebrar a arte na sua essência e prestar uma homenagem aos diversos artistas ilhavenses que contribuíram para a representação de um tempo outrora experienciado.

Um misterioso corredor com questões como “Fiel amigo?! De onde vem esta expressão?”, “Quem é, afinal, o «nosso bacalhau»?” ou “O bacalhau pode estar em vias de extinção?” aguçam a curiosidade para o que poderá estar mais adiante. Um texto presente numa das paredes responde a uma das questões anteriores e apresenta-nos o «nosso bacalhau». Trata-se do gadus morhua, vulgo bacalhau-do-atlântico, e o seu tamanho em adulto pode variar entre os 100 e os 200 centímetros de comprimento. É um peixe bastante aclamado por nós, portugueses, e está há séculos presente nas nossas mesas de natal. A sua captura é realizada maioritariamente nas partes fria e norte do oceano atlântico e, a par da Islândia, Portugal retira grande proveito económico desta espécie. No entanto, não é por razões financeiras que o Museu Marítimo de Ílhavo possui um Aquário de bacalhaus no seu interior. Este Aquário, inaugurado em janeiro de 2013, encontra-se em tudo ligado ao mote do museu e complementa a narrativa histórica da Faina Maior. Contemplar os seres nele existentes pode ser feito num nível superior, ao nível da água ou num nível mais baixo, através das suas enormes vidraças. Esta versatilidade e possibilidade de escolha confere ao tanque uma vertente estética e dinâmica capaz de encantar os mais novos e os mais velhos. Ao descer de forma circular pelos vários níveis do Aquário, chegamos ao auditório, onde se encontram duas pequenas bancadas e nas quais o visitante se poderá sentar e descontrair enquanto contempla os bacalhaus que navegam serenos. No interior do tanque com mais de três metros de profundidade, para além da água entre os 10ºC e os 12ºC e dos bacalhaus, encontram-se também algumas peças que visam a simulação de formações rochosas e ainda algumas algas, de forma a recriar o ecossistema destes seres aquáticos. Em adição, os bacalhaus aqui presentes partilham o Aquário com algumas abróteas provenientes dos Açores, também elas da grande família dos gadídeos. Se as suas crianças lhe perguntarem qual a diferença entre um bacalhau e uma abrótea, encare todos os animais presentes no tanque e procure os que possuem uma espécie de barbicha próxima da boca. Estes serão os bacalhaus. Os fiéis amigos do povo lusitano.

A história que é a navegação ao longo das salas do Museu Marítimo de Ílhavo termina com uma passagem pela sua loja, onde é possível adquirir souvenirs relativos ao museu ou jogos didáticos cujo propósito é consolidar os conhecimentos apreendidos durante a visita. No final, a nossa compreensão sobre a importância e o protagonismo que o mar teve na moldagem da cultura portuguesa deve equivaler a beleza e a estética das memórias vislumbradas ao longo das salas percorridas.

[João Caçador]

Leave a Reply

Obrigado pr subscreveres a nossa página!

Algo está errado! Tenta de novo, por favor!

A Casa do João will use the information you provide on this form to be in touch with you and to provide updates and marketing.
%d bloggers like this: