A Casa do João no 2º Simpósio JILIJ

No passado dia 10 de abril realizou-se, no Departamento de Línguas e Culturas da Universidade de Aveiro, a segunda edição do Simpósio de Jovens Investigadores em Literatura para Infância e Juventude. O tema central desta conferência passava pela Literatura para a Infância e Juventude e outras Artes, e contou com a presença de inúmeros palestrantes que estudam e indagam a forma como a LIJ se relaciona, por exemplo, com o Design ou com a Ilustração. O objetivo passava, não só por mostrar como pode um livro ser adaptado ou recriado, mas também por apresentar obras onde as representações, as figurações artísticas e as escolhas cromáticas são os ingredientes suficientes para a construção de uma história. No fundo, este simpósio pretende servir de atestado à dimensão interartística que é possível encontrar e fruir na Literatura Infantojuvenil.

A Casa do João obteve acesso a este circuito de palestras literárias e assistiu à realização de duas Mesas Redondas. Aqui, as convidadas tiveram a oportunidade de expor os temas nos quais se baseiam as suas teses de doutoramento e, desta forma, contribuir para o enriquecer dos tópicos abrangidos por este colóquio.

Inserida na Mesa cujo propósito era falar sobre a LIJ e outras artes, Inês Costa (Universidade de Aveiro) trouxe-nos Livros que os adultos ouvem, músicas que as crianças leem e procurou apresentar poemas que tivessem sido musicados e preferencialmente direcionados, numa primeira fase, a adultos, sendo posteriormente adaptados a livro para crianças. A palestrante tentou que a sua pesquisa não se baseasse em músicas ou poemas infantis, nem em músicas populares. Apresentou, então, exemplos de músicas internacionais que foram já adaptadas e ilustradas em livro, como são os casos de Imagine, de John Lennon, e de Happy, de Pharrell Williams. A análise de Inês levou-a a escolher duas obras com o cunho da editora Planeta Tangerina – O Primeiro Gomo da Tangerina, com texto de Sérgio Godinho e ilustrações Madalena Matoso, e Imagem, com texto de Arnaldo Antunes e ilustração Iara Conde. No primeiro caso, a música de Sérgio Godinho tem como sujeito poético o adulto, ainda que fale da primeira vez que uma criança provou uma tangerina. A ilustração desta obra ajuda a redirecionar o publico através das representações das diversas atividades relacionadas com as crianças que são observáveis ao longo de toda a sua composição. No segundo caso, Inês faz referência ao poema de Arnaldo Antunes que foi, posteriormente, musicado, e à panóplia de sinónimos da palavra ‘ver’ que este contém, associados ao olhar e à visão. Segundo a própria, seria muito difícil apelar ao público infantil através do texto, simplesmente. Assim, a ilustração de Iara Conde serve como ponte entre a obra e os leitores mais jovens. Exemplo disso mesmo é a capa desta obra, que contempla a representação de uma galinha, e ainda que não haja nenhuma referência a este animal durante todo o texto, este símbolo tende a aproximar este livro das crianças. A publicação numa editora direcionada às crianças e aos jovens e as representações visuais são traços comuns entre as obras expostas. Inês finaliza, procurando uma resposta à possibilidade de se afirmar que um livro ou uma música poderão ser mais para adulto ou para criança, dizendo que existe uma perceção de que as fronteiras entre os diversos públicos literários existem, de facto, uma vez que adultos e crianças requerem abordagens literárias diferentes.

Ana Albuquerque e Aguilar (Universidade de Coimbra) apresenta-nos Literatura infantil e juvenil digital: a multimodalidade na criação de um ecossistema literário e tenta mostrar os benefícios da LIJ digital. A conferencista justifica que esta abordagem aproveita os benefícios e a liberdade do meio (digital), uma vez que se baseia na interatividade, na não linearidade e na multimodalidade. Este último ponto permite combinar texto, música, imagens, animação e vídeo, o que permite ao leitor estar dinamicamente envolvido na construção do significado da obra. A investigadora deu o exemplo de Lil Red, uma adaptação do Capuchinho Vermelho à vertente digital. Neste caso, a música assume-se como um elemento muito importante, uma vez que, ao longo da obra, cada personagem é associada a um som – por exemplo, o lobo é associado à percussão e às cordas (melodias do tipo jazzística). Ainda assim, os corvos que aparecem regularmente durante toda a obra não se encontram musicados, ou seja, foi-lhes possível manter o seu som tão característico. Esta situação, explica Ana, prende-se pelo facto destes sons auxiliarem a representação sonora da floresta e todos os perigos a ela associados. Desta forma, são transmitidas informações culturais à criança, as quais se podem revelar como uma ajuda na compreensão da narrativa. Para além disto, o uso cromático das cores preto, cinza e vermelho contrasta com o normal observável nas obras destinadas às crianças. Em Lil Red, o Capuchinho veste vermelho, ao invés do lobo e dos corvos, que são totalmente pretos. Estas referências visuais auxiliam, segundo a palestrante, na identificação da heroína e do vilão, na perceção do perigo e na distinção do bem e do mal. Foi ainda feita uma alusão às aplicações disponibilizadas para tablets ou smartphones onde, através da ampliação, é possível ler na vertical e passar de uma dimensão à escala pequena para uma outra dimensão mais aproximada. Atentando ao formato das histórias automatizadas para estas plataformas, há quase como que uma relação entre as construções destas aplicações e as obras surrealistas de Escher.

A segunda Mesa Redonda desta tarde, dedicada à tertúlia literária e à exposição e comunhão de ideias e conceitos ligados ao setor editorial, teve como tema central a LIJ e ilustração: livro-álbum, livro de imagem e livro-brinquedo. Inserida neste propósito, Júlia Andrade (Universidade de Coimbra) convida-nos para ver o tempo: relações entre recursos visuais e materiais na representação da temporalidade nos livros de imagens e, desta forma, atentar como as imagens conseguem dar uma noção de tempo, fugindo ao princípio de que uma imagem é muito mais sinónima de espaço do que de tempo. A palestrante apresenta dois livros, tendo as suas escolhas recaído, uma vez mais, em obras com o cunho editorial da Planeta Tangerina – Um Dia na Praia e Praia-Mar. No primeiro exemplo, o facto de a guarda inicial do livro conter uma espécie de linha do horizonte e de, na última página, aparecer um micro barco inserido numa réplica dessa mesma linha do horizonte, faz transparecer a ideia de que, desde que o leitor começou a ler até que terminou, o barco percorreu toda aquela linha. Júlia alerta, ainda assim, para o cuidado de isto ser uma aferência e não um facto associado à obra em questão. O segundo exemplo, explica a investigadora, tem a particularidade de ser um livro de grande dimensão, o que o faz parecer um álbum fotográfico. Neste, a representação da maré, da linha da água, vai ficando cada vez maior e consumindo cada vez mais espaço visual da direita para a esquerda do leitor, contrariando o sentido da sua leitura. A dada altura, a água cruza o centro do livro, o que dá a entender ao leitor que o tempo, de facto, passou. Júlia considera ainda a existência de uma mudança na perceção do tempo e do espaço ocupado, uma vez que as páginas totalmente ilustradas a azul e os corpos submersos na água transmitem uma ideia de maior proximidade. Em Praia-Mar, o virar de cada página demonstra o movimento da água. A noção de tempo é, de facto, um elo de ligação entre as obras apresentadas, o que faz com que a ilustração de ambas seja um fator fundamental no desenrolar das suas histórias.

Diana Martins (Universidade do Minho), a última conferencista deste simpósio, mencionou as Recriações esquecidas em livro-brinquedo do conto intemporal A Gata Borralheira numa clara alusão ao livro-brinquedo. A história por de trás deste objeto remonta às décadas entre 1950 e 1970, segunda metade do século XX e pré 25 de abril, quando as casas editoriais surgem com os primeiros livros-brinquedo que fazem as delícias dos jovens leitores. Diana teve a oportunidade de mostrar uma adaptação de A Gata Borralheira em formato de livro de pano, levada a cabo pela Majora (uma casa dedicada aos jogos de tabuleiro e aos brinquedos). Esta constituiu uma edição indicada para pré-leitores, pelo que as representações ilustradas se encontravam aproximadas a desenhos animados. O objetivo desta medida passava por abeirar este livro à categoria dos brinquedos para, assim, captar a atenção das crianças.

O propósito deste Simpósio de Jovens Investigadores em LIJ visava, não só a apresentação de temas e de projetos de investigação relacionados com o campo da literatura, mas também a discussão e o esclarecimento dos pressupostos a eles associados. No final deste ciclo de palestras, vertentes como a ilustração ou a edição saem reforçadas enquanto reais acrescentos de valor e de contemporaneidade na literatura em geral. O futuro só pode ser risonho.

João Caçador

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