Dica de Leitura: ler ou contar?

Muitas vezes, ou quase sempre, toma-se ler por contar e contar por ler, como sendo sinónimos. Não é assim. Há algumas diferenças entre ler e contar.

Vejamos:

1. No “contar”, prevalece a relação entre o narrador e o ouvinte, como se fosse uma conversa, com um destinatário pessoal, na medida em que quem conta dá algo de si àquele que escuta.

No “ler”, ao invés, é o livro quem centra e objetiva a experiência. A relação é a de duas pessoas que partilham algo que lhe é externo, o livro. Não se trata de um contador e de um ouvinte olhando-se, mas de um leitor e de um ouvinte, um ao lado do outro, olhando juntos para o livro. No “ler”, a comunicação estabelece-se por meio de palavras e de imagens que provêm de alguém que não está presente, mas que tem algo a dar-nos: o(s) autore(s).

2. O “contar” exige mais do contador, o “ler” exige mais do ouvinte.

O “ler” é uma comunicação menos direta entre o leitor e o ouvinte, porque, na escrita, o significado é, habitualmente, mais compacto, as frases estão construídas de uma forma mais densa do que na língua falada.

No “contar”, o contador pode explicar e repetir, abreviar ou ampliar, enfatizar esta ou aquela parte. Quem lê não pode adaptar-se ao ouvinte com tanta liberdade, porque segue um texto autorizado, pelo que explicar ou mudar o texto pode arruinar a experiência de leitura e desqualificar o texto.

3. O ouvinte da leitura precisa de mais tempo para compreender o que está a ler-se, pelo que a leitura deve ser mais lenta e menos teatral. Por outro lado, uma vez que a fonte da leitura é um texto visível, aos leitores iniciais deve mostrar-se o livro enquanto escutam, porque a forma como as palavras se dispõem na página é, não raras vezes, importante para a sua compreensão.

Posto isto, importa realçar que “ler” e “contar”, apesar de não serem sinónimos nem equivalentes, podem coexistir, em momentos distintos, no trabalho de educação literária e de fruição da literatura. Ambos os modos reclamam um tempo exigente de preparação, uma cuidada e adequada seleção de textos / contos e uma grande entrega pessoal para que a audição de textos (contada ou lida) seja uma mais-valia para os leitores.

João Manuel Ribeiro

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