Mia Couto defende a libertação com a poesia

O escritor moçambicano lamentou ontem, no Festival Literário Tinto no Branco, o “policiamento à língua” que vai desde antes da palavra, do próprio pensamento, até à obrigação que as crianças têm em falar e escrever de forma perfeita.

“Há um policiamento da própria linguagem, daquilo que é uma linguagem metafórica, poética, que parece que é uma coisa tida para os escritores, uma coisa autorizada aos poetas e isso é terrível, porque retira das possibilidades de linguagem a criação de beleza, a beleza não só na própria linguagem, mas a linguagem é uma visão do mundo e, portanto, retira beleza ao mundo e, portanto, há um empobrecimento”, considerou Mia Couto.

“Há uma interdição daquilo que se chama um pensamento socialmente ou politicamente incorreto e a gente não sabe bem o que é isso e isso é uma enorme limitação, uma espécie de amputação daquilo que seria mesmo um direito de pensar errado, um direito de evitarmos isto que é um lado puritano, uma certa invasão do lado puritano, do lado que tenta purificar o mundo”, disse mais tarde à agência Lusa.

Mia Couto lembrou o poeta brasileiro Manuel de Barros que dizia que “fazer poesia é errar bonito” e, também por isso, defendeu que ler poesia às crianças será uma das formas de as retirar do “policiamento à obediência da gramática, da regra, do falar correto, que não dá erros”.

“Se reter aquilo que é revisitar a linga para além dos limites, para além da norma e ter a ousadia de dar erros. Fazer poesia é errar bonito então esse errar é criar beleza e errar implica sempre uma subversão, implica sempre uma ousadia, implica um erro”.

Mia Couto disse que a escola “tem de cumprir o lado disciplinador, tem de ensinar a norma, a regra” mas, depois, “falta ensinar o prazer de desrespeitar a regra, falta ensinar essa indisciplina da alma, que falava Fernando Pessoa, que só essa possibilidade de culminar a disciplina e indisciplina como os dois lados da mesma moeda é que permite que a criança perceba, que pode haver um enorme prazer, um jogo infinito” no errar e na poesia.

“Uma das razões que eu sou feliz é que eu tenho em coisas tão próximas, como falar, como escrever, como estar com os outros a possibilidade de fazer o jogo, combinações infinitas”. E a poesia, no entender do escritor moçambicano, “já vem com as crianças, elas vêm com esse infinito de poesia, elas têm essa carga, porque ainda têm disponível um outro olhar sobre o mundo, um olhar mais mágico, mais encantado”.

“Mas, isso depois é amputado, é disciplinado de uma maneira que hoje me parece bastante grave”, apontou sem querer responsabilizar os adultos, uma vez que, no seu entender, todos “são culpados e vítimas”.

Mia Couto contou um episódio com o neto mais velho, quando avistou uma cobra disse ao avô que “era um animal com um pescoço muito grande” e, neste sentido, o escritor disse que “seria terrível se o tivesse corrigido a dizer que era uma cobra ou uma serpente” uma vez que as crianças “têm a sua visão” do mundo.

“Faz-nos falta esse lado da infância dentro de nós, acho que deixámos de saber falar com as crianças e temos uma maneira muito reduzida de manter uma conversa que não passa só daquelas perguntas meio estúpidas: de que escola és? E em que ano andas? Como te chamas? E o que queres ser quando fores grande como se eles já não fossem, como se essa criança já não fosse alguém”, alertou

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