Mamã, hoje vamos de bicicleta para a escola?

“Mamã, hoje vamos de bicicleta para a escola?”, pergunta o Rodrigo entre um gole de leite e uma trinca no pão. Se a resposta é afirmativa, sai-lhe um estridente “Yeeeeeah!”

O Rodrigo tem três anos e desloca-se na cadeirinha da bicicleta da mãe para a pré-escola. Mas não vão sozinhos. Formam apenas uma das carruagens do comboio de bicicletas que circula em direção à Escola Básica e Jardim de Infância das Barrocas, em Aveiro: o Ciclo Expresso das Barrocas.

Este ano letivo, são treze os passageiros mais assíduos, pertencentes a cinco agregados familiares. O Rodrigo e o amigo Baltasar, também de três anos, são os únicos que seguem viagem nas cadeirinhas. O Sebastião, o Tomás, o Gaspar, a Mafalda, o João e a Bárbara, com idades compreendidas entre os seis e os oito anos, pedalam nas próprias bicicletas. Ocasionalmente juntam-se mais uma ou duas famílias.

O Rodrigo e a mãe apanham o comboio às 8h39, na segunda paragem, a pouco mais de 1km da escola, a quarta e última estação. O caminho que fazem é todo pela estrada (existem uns escassos metros de ciclovia apenas no início do percurso) e, por isso, independentemente do número de ciclistas presentes, a dinâmica é sempre a mesma: segue um adulto à frente e um adulto atrás, as crianças circulam em fila entre os dois, sempre encostadas ao lado direito, e alguns pais pedalam a par do lado esquerdo, quando é possível. A segurança nunca pode ser descurada.

Para estes alunos, a viagem para a escola é uma animação, é um momento de diversão e convívio. Não há sono, nem preguiça. Chegam todos bem despertos para começar o dia. E quem vai a pedalar já leva um exercício físico matinal e uma descarga de energia de avanço. Os pequenos ciclistas são unânimes em afirmar que a viagem de bicicleta é a forma preferida de ir para a escola. O Rodrigo, contudo, fica dividido. Um dia por semana, ele vai a pedalar na sua própria bicicleta, mas como ainda não tem o ritmo nem a confiança dos amigos mais velhos, segue por um caminho alternativo, pelo passeio, apenas com a mãe, que o acompanha a pé. Ele adora ir com o grupo, mas o dia de ir na bicicleta dele também é especial. Do que ele não gosta mesmo é de ir de carro, quando chove muito ou quando esporadicamente a mãe tem de seguir viagem para fora da cidade. Quando a chuva é miudinha ou intermitente e a deslocação em duas rodas se mantem, o Rodrigo fica ainda mais entusiasmado porque isso significa vestir por cima da roupa o macacão e a capa impermeáveis e calçar as suas adoradas galochas verdes. Despido o equipamento extra, entra na sala seco!

Embora o Rodrigo só tenha integrado o Ciclo Expresso das Barrocas no início do ano letivo, quando entrou no jardim de infância deste centro escolar, a iniciativa já existe há mais de um ano. Começou com uma periodicidade semanal, à sexta-feira. Este ano passou a ser diário, sofreu uns ajustes aos horários e ganhou adeptos. Mesmo assim, muitos pais confessam que não acompanham por receio dos automobilistas. Quem anda no comboio percebe estas reticências, mas reconhece que aqueles estão em geral mais sensibilizados para os ciclistas, sobretudo quando se trata de crianças a pedalar. No entanto, têm consciência que ainda há um grande caminho a percorrer.

Por enquanto, não há Ciclo Expresso das Barrocas de saída, mas o regresso da escola também é feito de bicicleta. Às vezes, acontece juntar-se um grupo de crianças que saem ao mesmo tempo e criam com os pais um comboio informal. Na volta, o Rodrigo normalmente sai com o pai.

Para os pais do Rodrigo, uma das principais motivações para aderirem ao projeto e se deslocarem de bicicleta prende-se com este ser um comportamento ecologicamente favorável, não só pela promoção objetiva de um meio de transporte sustentável, como pela educação num sentido mais lato sobre a importância de adoção de um estilo de vida consciente e preocupado com o planeta. Os benefícios para a saúde, para a socialização, para a cidadania, para a economia familiar são alguns dos bónus que eles acrescentam às vantagens ambientais.

O Ciclo Expresso das Barrocas continuará a andar sobre (duas) rodas. E o Rodrigo está ansioso por ir a pedalar com os amigos.

Inês Brito

Inês Brito, 36 anos, natural, residente e apaixonada por Aveiro.  Amiga do ambiente, mas sem extremismos. Cada vez mais preocupada em levar a sustentabilidade para os eventos que cria e organiza através d’a fada madrinha, um dos seus projetos profissionais. 

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