Um livro para celebrar a paz

Ao leitor mais desatento ou distanciado da literatura que tem como destinatário preferencial as crianças e os jovens, A Guerra, escrito por José Jorge Letria e ilustrado por André Letria (Pato Lógico, 2018), pode parecer desadequado ou, no mínimo, excessivo. A verdade é que o livro reclama demorada atenção ao texto e às cores retidas por traços, combinações que suscitam a imaginação e a sensibilidade, oferecendo ao leitor novas possibilidades de reflexão e de fruição estética.

Composto por 17 frases (versos?), a modo de aforismo ou sentença, distribuídas ao longo de 64 páginas ilustradas, versa o tema da guerra sem medo e, sobretudo, de forma expressiva e surpreendente. A combinação entre texto e ilustração (funcionando como um todo magnífico, nas palavras júri do White Ravens 2018) sugere, simultaneamente, um olhar sobre acontecimentos bélicos passados e um olhar esperançosamente crítico, com o intuito de nos fazer compreender o que poderia ter sido diferente e que lições podemos tirar dela para evitar sua repetição.

A evidente desproporção entre texto e ilustração potencia a ampliação de possíveis sentidos e significados. A este título, note-se, por exemplo, que nenhuma personagem apresenta face, os soldados têm cabeças de manequins, como se fossem marionetas ou «filhos de aço». Ao invés, o ditador soberano possui um elmo e um “arsenal” de máscaras, armaduras e chapéus, símbolos de imperadores, generais e líderes fascistas em diferentes países e culturas, em tempos distintos. A morte é uma presença transversal e personificada na figura do corvo, representando a morte, o mau presságio, o azar: “A guerra sabe sempre onde a temem e a esperam.”

A narrativa (textual e imagética) apresenta a história como dinâmica aberta, contra a mera informação (que generaliza abstratamente) e o historicismo (o sucessivo encadeamento de fatos cronologicamente ordenados no tempo), numa assumida intencionalidade de não ignorar a “história da guerra”, porque esta «nunca foi capaz de contar histórias» e «A Guerra é silêncio», como se diz na derradeira sentença, síntese de toda a narrativa.

A inscrição deste livro no âmbito da Literatura Infantil e juvenil justifica-se pela necessidade de estimular, entre as crianças e não só, a leitura de obras que abordem questões pertinentes. É, com efeito, imperioso apresentar às crianças a “crueldade” do mundo, sem dispensar a pedagogia da imaginação como diálogo entre a tradição/história e a renovação/futuro.

Este livro de José Jorge Letria e André Letria, se bem explorado pedagogicamente, sem temores e aparentes dificuldades de leitura visual, pode ter um papel educativo fundamental, na medida em que apresenta às crianças, de forma engenhosa, um “retrato” da guerra que constituiu um vigoroso desafio à construção da paz.

Justamente incluído no White Ravens 2018, Internationale Jugendbibliothek (Biblioteca Internacional da Juventude) e recomendado pelo PNL2027 – Plano Nacional de Leitura (livro recomendado para crianças e jovens dos 9 aos 14 anos e para maiores de 18 anos)

Leave a Reply

Obrigado por te juntares à Tribo!

Algo está errado! Tenta de novo, por favor!

A Casa do João will use the information you provide on this form to be in touch with you and to provide updates and marketing.
%d bloggers like this: