Octocuecas: um livro excecional…

Octocuecas, com texto de Suzy Senior e ilustração de Claire Powell (Minutos e Leitura, 2018, tradução de Pedro Costa) é um sábio e hábil elogio à (aceitação e reconhecimento da) diferença.

Antes de mais, importa referir que polvo (do latim Octopus) é o nome vulgar dos moluscos, desprovidos de concha e possuidores de oito braços fortes (embora o prefixo latino “pus” signifique pés) e com ventosas dispostos à volta da boca.

Tendo isto em conta, não é de estranhar que o texto (em versos rimados) comece com o polvo a apresentar-se: «Olá! Eu sou um polvo. Mas há algo que deves saber… Não tenho cuecas vestidas. E de rabiosque ao léu, ui, ui, não pode ser!» E porque o polvo quer ser como todos, tenta comprar umas cuecas, confrontando-se com o problema das seis pernas a mais, mas procurando na cidade, usando a internet e até “molhando” o cartão de crédito, mas sem sucesso.

Até ao dia em que encontrou uma loja conhecida por todo o alto-mar, gerida por um sábio Cavalo-Martinho, que mostra como há roupas para todos (crustáceos, enguias, ouriços-do-mar, focas, medusas, baleias, trutas) e de todos os feitios, mas cuecas para o polvo não e por uma simples razão: «Mas, com todo o respeito: talvez não precise delas, mas de outra coisa…».

E o polvo compreendeu: «O problema estava todo trocado: as minhas pernas, agora percebi, não eram pernas, eram BRAÇOS! E sempre foram, desde o dia em que nasci!»

E o polvo re-apresenta-se: «Olá, outra vez. Eu sou um polvo. E como sabes, não uso cuecas. Mas não sou nenhum estarola… Eu comprei uma OCTOCAMISOLA!»

As ilustrações de Claire Powell emprestam ao texto, além da plasticidade visual, uma estonteante ironia, patente em páginas como a da procura na Internet, a dos animais marinhos vestidos de cuecas, a da loja (intitulada “Empório Aquamani”), a das cuecas em cada um dos braços/ pernas do polvo e a página final com o polvo vestido com uma colorida camisola branca e vermelha, rodeado de animais marinhos com cuecas, entre outros detalhes significativos.

Os paratextos da ficha técnica (disposta como se fosse ondas marinhas) e do frontispício surpreenderão também os mais atentos.

Octocuecas constitui um desafio a pensar a diferença, a questionar os padrões da “normalidade”, a procurar e encontrar a dignidade da própria identidade (também a sexual, como, neste caso parece evidente) e a, por isso, reivindicar o direito à felicidade. Excecional!

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