Ai que prazer ter um livro para ler…

Incomoda-me a iliteracia. Incomoda-me que muitos digam que ler não lhes faz falta, o que, por si só, é já uma evidente manifestação dos efeitos da iliteracia. Incomoda-me que se tivesse deixado de acreditar que estudar, ler, formar-se é uma mais-valia para a vida e para o futuro. Incomoda-me que a iliteracia esteja a levar-nos, como bem assinalou Fernando Navarro, à idiotização da sociedade como estratégia de dominação. Incomoda-me que o Estado, e quem nele tem especiais obrigações, nada faça para diminuir os altos índices de iliteracia em Portugal. Incomoda-me que os territórios educativos estejam, inconscientemente ou talvez não, a assimilar a falácia do saber fácil, barato e a dar milhões. Incomoda-me que o mercado de trabalho esteja a subtrair aos pais a sua missão educadora. Incomoda-me que se tivesse deixado de acreditar na leitura em voz alta.

Neste contexto e como bom exemplo de trabalho em favor da literacia da leitura por parte dos pais, destaca-se a organização norte-americana Read Aloud, cujo slogan é “Leia em Voz Alta 15 minutos. Cada criança. Cada Pai/Mãe. Cada Dia.” Esta organização, note-se, sustenta o seu trabalho em investigações científicas e opiniões reputadas, para que não se situe apenas no domínio da opinião, mas no âmbito da(s) ciência(s) da educação. Assim, por exemplo, cita um estudo recente segundo a qual a leitura em família é uma das estratégias mais eficazes, uma vez que se demonstrou que as crianças cujos pais leem em voz alta adquirem competências de linguagem e chegam mais bem preparadas à escola.

“Ler em voz alta para crianças pequenas, particularmente de forma envolvente, promove a alfabetização emergente e o desenvolvimento da linguagem e apoia a relação entre a criança e os pais”, pode ler-se nos Archives of Disease in Childhood. A estes benefícios, pode acrescentar-se a aquisição de vocabulário, a melhoria da capacidade de aprender a ler e, talvez mais importante, a promoção do amor aos livros e à leitura, ao longo da vida.

Jim Trelease, no best-seller, The Read-Aloud Handbook defende que, sempre que lemos para uma criança, estamos a enviar uma mensagem de “prazer” para o seu cérebro. E isto é importante quando a atenção da criança é reclamada pela televisão, pelos filmes, pela Internet, pelos videojogos e as inúmeras atividades pós-escola. Além disso, as experiências negativas de/com a leitura – frustrações em aprender a ler ou o tédio de algumas «leituras escolares» – podem afastar as crianças da leitura e ter consequências a longo prazo. Ainda segundo Jim Trelease, os alunos que leem muito, conseguem melhores resultados e permanecem mais tempo na escola. A leitura em voz alta é, de acordo com o histórico relatório norte-americano de 1985, intitulado Becoming a Nation of Readers, “a atividade mais importante para a construção do conhecimento necessário para o sucesso final na leitura”.

Apesar deste conselho, conclui o Read Aloud, alguns educadores e muitos pais não leem em voz alta para crianças desde cedo e, portanto, não conseguem “gerar” leitores ávidos e habilidosos. E isso é especialmente verdadeiro para crianças com famílias de baixo rendimento. De acordo com o Fórum Interagência Federal sobre Estatísticas da Criança e da Família americano, apenas 48% das famílias abaixo do nível de pobreza liam aos seus pré-escolares todos os dias, em comparação com 64% das famílias cujos rendimentos atingiram o nível de pobreza ou acima desse nível. As crianças de famílias de baixo rendimento também são menos propensas a contactar com materiais impressos.

A boa notícia para todas as famílias é que este sábio pedaço de sabedoria parental é fácil de seguir. Ler em voz alta para os filhos requer apenas um livro livre, um cartão de biblioteca (se necessário) e vontade de passar um pouco de tempo de qualidade com ele(s). E enquanto os sacrifícios para ler em voz alta são poucos, os benefícios são muitos: aprender a ler melhor, a pensar melhor, a imaginar mais ricamente e a tornar-se um leitor apaixonado e permanente. Mais do que esses benefícios a longo prazo, no entanto, são os benefícios imediatos: o prazer de passar o tempo com os filhos e partilhar o prazer de um bom livro.

João Manuel Ribeiro

Notícias do Tâmega

27 de setembro

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