Ler dá saúde…

Quem o afirma é o médico e escritor Moacyr Scliar autor de, entre outros, A Paixão Transformada, um ensaio sobre as relações entre medicina e literatura.

Em artigo publicado na Revista Prosa Verso e Arte, Moacyr Scliar começa por citar o poeta e dramaturgo americano William Carlos Williams (1883-1963) (“É difícil / extrair novidades de poemas / no entanto, pessoas morrem miseravelmente / pela falta daquilo que ali se encontra.”) para perguntar: “o que existe, nos poemas e na literatura em geral, que pode manter as pessoas vivas e, quem sabe, até ajudar na cura de algumas doenças?”

Em primeiro lugar, um efeito terapêutico. Verbalizar ajuda os pacientes, e esse é o fundamento da psicoterapia – ou talk therapy, como dizem os americanos. E a inversa é verdadeira: ao ouvir histórias, as crianças sentem-se emocionalmente amparadas. E não apenas elas, claro. Dizia Bruno Bettelheim (1903-1990), psicólogo americano de origem austríaca, sobrevivente dos campos de concentração nazistas: “Os contos de fadas, à diferença de qualquer outra forma de literatura, dirigem a criança para a descoberta de sua identidade. Os contos de fadas mostram que uma vida compensadora e boa está ao alcance da pessoa, apesar das adversidades”.

A leitura transformou-se num recurso terapêutico ao longo dos tempos. No primeiro hospital para doentes mentais dos Estados Unidos, o Pennsylvania Hospital (fundado em 1751 por Benjamin Franklin), em Filadélfia, os pacientes não só liam, mas também escreviam e publicavam seus textos num jornal muito sugestivamente chamado The Illuminator.

Nos anos 60 e 70 do século 20, o termo biblioterapia passou a designar essas atividades, surgindo, de seguida, a poematerapia, desenvolvida em instituições como o Instituto de Terapia Poética de Los Angeles, no estado americano da Califórnia. Aliás, nos Estados Unidos existe até a Associação Nacional pela Terapia Poética.

No Brasil, o livro O Terapeuta e o Lobo – A Utilização do Conto na Psicoterapia da Criança, do psiquiatra infantil, poeta e escritor Celso Gutfreind destaca a enorme importância terapêutica do conto, como forma de reforço à identidade infantil e como antídoto contra o medo que aflige tantas crianças. Há ainda o Projeto Biblioteca Viva em Hospitais do Rio de Janeiro e mantido pelo Ministério da Saúde, pela Fundação Abrinq pelos Direitos da Criança e por um banco. A leitura, realizada por voluntários, ajuda a criança a vencer a insegurança do ambiente estranho e da penosa experiência da doença, terrível para todos, mas ainda mais amedrontadora para os pequenos.

Em Portugal, temos o Projeto Nuvem Vitória, a Operação Nariz Vermelho e os voluntários de leitura.

Finalmente, refere Moacyr Scliar, a literatura pode colaborar na própria formação médica. Muitas escolas de medicina pelo mundo, inclusive no Brasil, estão incluindo no currículo a disciplina de Medicina e Literatura. Através de textos como A Morte de Ivan Illich, do escritor russo Léon Tolstoi (em que o personagem sofre de câncer), A Montanha Mágica, do alemão Thomas Mann (que fala sobre a tuberculose) e O Alienista, do brasileiro Machado de Assis (uma sátira às instituições mentais do século 19), os alunos tomam conhecimento da dimensão humana da doença. E assim, mesmo que muitas vezes indiretamente, a literatura passa a ajudar pacientes de todas as idades.

Está visto, ler dá saúde! Portanto, LEIA!!!

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