Sobre literatura e cidadania

Ricardo Azevedo é escritor e ilustrador com vários livros publicados, Doutor em Letras pela Universidade de São Paulo e investigador na área da cultura popular.

Saiba mais em www.ricardoazevedo.com.br e https://www.facebook.com/rjdazevedo/

Vivemos em tempos científicos e tecnológicos. A ciência e a tecnologia, como disse Martin Heidegger, têm como objetivo final extrair e tornar útil de forma controlada e ilimitada, a energia da natureza. O problema, segundo Heidegger, é que o homem faz parte da natureza e, portanto, também está submetido a esse processo de extração e dominação, mas não é o caso de discutir nada disso aqui. Quero apenas lembrar que o utilitarismo e o funcionalismo, diretamente ligados ao pensamento técnico e cientifico (e econômico), parecem fazer parte, cada vez mais, da visão que temos da vida e do mundo.

Eis porque, no ambiente atual, somos levados a acreditar que o que não tem utilidade nem função, não tem sentido.

Mas, pergunto ao leitor, para que serve o devaneio? Qual a função da amizade? Para que serve o sublime? Qual a função da festa, da brincadeira, da dança e da música? Afinal, para que serve ou qual a função da vida?

Reconheço que não tem muito nexo fazer esse tipo de pergunta mas, da mesma forma, não creio que tenha cabimento tentar buscar na literatura uma função e uma utilidade, pelo menos nos moldes da ciência e da técnica.

Para além de utilidades, funções, programas, sistemas e informações, convenhamos, existem muitos e muitos assuntos. Por exemplo: a construção de um sentido para a vida; a busca do autoconhecimento; as paixões humanas; a confusão entre “realidade” e “imaginação”; a luta arcaica e atual do velho contra o novo (ou entre as gerações, ou entre tradição e renovação); o problema da dupla existência da verdade (em outras palavras, da “colisão do Bem com o Bem”); a efemeridade ampla, geral e irrestrita; as utopias pessoais; os conflitos morais; a questão da identidade; as incoerências, ambiguidades e contradições inerentes à existência humana concreta e assim por diante.

Tais são, a meu ver, os assuntos da literatura, assuntos note-se não passíveis de “sistemas e métodos”. Alguém que queira programaticamente propor técnicas e exercícios relativos à paixão ou métodos para controlar o fértil e vital confronto entre as gerações fará tudo menos algo que deva ser levado a sério.

Ao contrário da ciência e da técnica, que vivem em busca de padrões universais obtidos por meio da análise objetiva dos fenômenos, a literatura carrega em seu bojo, necessariamente, uma voz pessoal e um ponto de vista subjetivo e original com relação as coisas da vida e do mundo. Além disso, opera fundamentalmente por meio da ficção.

Aos utilitaristas que consideram a ficção uma inutilidade, sempre é bom lembrar que ela representa uma das mais importantes formas de experimentar a verdade criadas pelo homem. Sem a ficção seríamos incapazes de imaginar cenários e hipóteses tanto para nosso futuro pessoal como para um futuro melhor para a sociedade e para o mundo.

Por essas e outras razões, sempre tenho dúvidas quando se pretende associar a literatura a temas como cidadania e outros do gênero.

Trata-se na maioria das vezes de uma tentativa de torná-la “útil” ou, melhor, de reduzi-la a uma mera “função”.

Esquece-se que o próprio conceito de “cidadania”, para ficar no mesmo exemplo, considerado consensual por princípio é, na verdade, bastante impreciso, afinal, alguém poderia sugerir uma “autêntica cidadania nazista”.

Todos almejamos que nossos jovens, assim como nossos adultos, tenham uma boa noção do que seja a cidadania. Mas que cidadania?

Fora o senso de responsabilidade para com nossa sociedade e para com nossos concidadãos, creio que falar em cidadania implica a compreensão de que num mesmo contexto social podem haver diferentes padrões sociais, éticos e estéticos e que todos devem ser igualmente respeitados. Implica o repúdio a qualquer tipo de exploração do homem pelo homem. Implica lidar com o inevitável confronto entre liberdade e autoridade. Implica o respeito a diferentes opções e estilos de vida desde que estes não prejudiquem o outro. Implica a luta contra a destruição da natureza. Implica compreender que é inerente à vida em sociedade o conflito entre interesses pessoais e interesses coletivos. Implica o engajamento na construção de uma sociedade mais democrática, justa e solidária para os recém-chegados e para os que ainda não nasceram.

Duvido que uma noção abstrata como “cidadania”, apenas por ser mencionada num discurso, consiga abarcar de forma significativa e compartilhável tantas questões.

O mesmo costuma ocorrer com conceitos abstratos como “liberdade”. “igualdade”, “justiça” e outros. São tão amplos que correm o risco de se transformarem em simples retórica. Eis porque são recorrentemente utilizados por ditadores, demagogos e políticos populistas, assim como pela publicidade.

Talvez fosse melhor falar pelo menos em algo como “cidadania humanista.” Mas para isso teríamos que definir cidadania e humanismo.

Deixo o problema para o leitor.

Acredito, em todo o caso e para finalizar, que jamais teremos uma sociedade digna desse nome sem que seus cidadãos tenham amplo acesso à literatura (e à arte). Mas não uma literatura domesticada e utilitária. Nem uma literatura politicamente correta ou escrava de ideologias e das leis de mercado.

Refiro-me a uma literatura, seja ela considerada adulta, infantil, juvenil, erudita, popular, nacional, estrangeira ou outra, plena de vitalidade, capaz de descrever e discutir de forma inesperada a vida e o status quo; capaz de emocionar; capaz de ampliar a visão que temos de nós mesmos; uma literatura que seja ética no sentido de expressar os sentimentos profundos e a visão de mundo do escritor e não apenas seus interesses imediatos; que seja inventiva com relação a linguagem e que consiga colocar em palavras as inquietações e contradições humanas.

Vou concluir esse artigo com “O artista inconfessável”de João Cabral de Melo Neto (Museu de tudo. 2ª ed. Rio de janeiro, José Olympio, 1976), belo poema que, a meu ver, aborda tudo o que discutimos até agora e muito mais.

Fazer o que seja é inútil.

Não fazer nada é inútil.

Mas entre fazer e não fazer

mais vale o inútil do fazer.

Mas, não, fazer para esquecer

que é inútil: nunca o esquecer.

Mas fazer o inútil sabendo

que ele é inútil, e bem sabendo

que é inútil e que seu sentido

não será sequer pressentido,

fazer: porque ele é mais difícil

do que não fazer, e difícil-

mente se poderá dizer

com mais desdém, ou então dizer

mais direto ao leitor Ninguém

que o feito o foi para ninguém.

Texto publicado originalmente em Solta Palavra 19.

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