Guia para quem gosta de livros e para quem quer escrevê-los…

Gostaria de sugerir-vos um livro absolutamente fabuloso, cuja edição em Portugal se encontra esgotada (consegui-o depois de muita busca na internet e no OLX). Trata-se da obra da reputadíssima escritora norte-americana Francine Prose, intitulada Para ler como um escritor – Um guia para quem gosta de livros e para quem quer escrevê-los.

Aparentemente, o título parece induzir em erro ao associar a ação de ler ao escritor, dando a entender que se trata de um manual de escrita criativa (e é-o, efetivamente). No entanto, o subtítulo põe os pontos nos is, postulando com especial acerto o propósito do livro. Repare-se na formulação: guia para quem gosta de livros e para quem quer escrevê-los, ou seja, são dois os destinatários preferenciais do livro: quem gosta de livros e quem quer escrevê-los, presumindo-se que as duas ações não têm de coexistir na mesma pessoa. Se assim fosse, a formulação mais adequada seria “guia para quem gosta de livros e quem quer escrevê-los”. Numa palavra, a meu ver, este é um livro que deviam ler todos os leitores autónomos, todos os que gostam de ler, independentemente de desejarem ou não escrever livros, até, porque, dizem alguns, ler é, em certo sentido, (re)escrever.

A leitura deste livro por quem gosta de ler parece-me fundamental porque permite compreender algum do mistério que subsiste na relação entre o escritor e o leitor, entre as artimanhas (arte+manhas) do escritor (as técnicas da escrita) e as competências literárias (e não só, também existenciais e circunstanciais) do leitor. Creio firmemente que as competências leitoras não se correlacionam com o nível prévio de formação literária ou académica dos leitores, mas, antes, com o seu historial de vida e relação com “bons” e “grandes” livros. A leitura de um bom livro (bem escrito, criativo, invulgar, emocionante) é o melhor instrumento de e para a formação de leitores. O contacto regular e continuado com este tipo de livros tem como efeito (secundário?) o acréscimo de exigência na seleção do que se lê (e até, acrescento eu, do modo como se lê). Por outro lado, este o livro confirma a ideia de que um bom escritor é, por norma, um bom leitor. Para o escritor, a leitura (múltipla e variada) é uma “gramática” que lhe permite escrever com qualidade, capaz de surpreender o leitor. Os exemplos apresentados como autores que são exemplo de boa escrita (a ler e a imitar criativamente são Virgina Woolf, Jane Austen, Nabokov, Philip Roth e Flaubert.

Não estando o livro disponível na sua edição portuguesa, recomendo a leitura da edição brasileira que se encontra disponível aqui. Se não tiver pachorra para ler o livro todo (“Ah! Que prazer ter um livro para ler e não fazer!” – Fernando Pessoa), recomendo que, pelo menos, leia a entrevista final, Ler e escrever – uma conversa com Francine Prose, conduzida por Jessica Murphy e publicada em The Atlantic online em 18 de julho de 2006 (nas páginas 254 a 262).

Boas leituras!

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