Aqui há gato!

A expressão idiomática que dá título a este livro – Aqui há gato –, de Lídia Borges (pseudónimo de Olívia Marques) e Sílvia Mota Lopes (edição Poética, Braga, 2017), remete-nos de imediato para o animal predileto dos poetas.

Sim, porque logo no primeiro verso (ou na primeira frase desta história em verso, se preferirem assim), somos avisados de que «há um gato branco / à espreita nas linhas deste poema». E toda a gente sabe que este «é bicho de muitas traquinices / e de outras tantas tolices», destemido, «arrisca-se a passear / sobre os fios mais finos / que tu possas imaginar», «convencido de que não cai» e «não se vai magoar»; bicho que gosta de «trepar por um raio de sol de inverno» «para as cordas do estendal / e dali para a linha do horizonte / como se ela fosse o muro do quintal»; bicho que se põe «a espiar / o lado de baixo do mundo, / a ver se há gatos / que andam de pernas para o ar; bicho que se apaixona «por uma nuvenzinha» e que com ela dança, sendo «engraçado vê-los dançar, / cai não cai, a nuvem para terra, / o gato para o céu»; bicho de muitas façanhas, como «atravessar estreitezas», que ouve a mãe que o avisa, mas logo desanda «se um risco sem rumo o chama».

Está claro que bicho assim tinha de meter-se em alguma trapalhada: escolheu, «para se regalar», «a linha de fronteira, fina como só ela, / que separa um ano velho de um ano novo». «Mas que grande atrevimento / brincar assim com o tempo…!», conclui o sujeito poético, omnisciente desde o primeiro verso. E o gato, «na ponta do ano velho», «estava do lado errado / da porta que bateu», apavorado e sozinho. Todos passaram para o ano novo, exceto o pequeno gato branco que a mãe-gata foi encontrar «muito lampeiro / a espreitar do O de dezembro / para o corpo esguio do J de Janeiro». E, de novo nos informa o sujeito poético, «tudo isto a acontecer / no calendário da cozinha / entre uma cebola, um alho roxo / e uma sardinha.». O gato com «o pelo todo manchado / bocados de noite do tempo passado / caídos na neve do tempo presente», tremendo com frio ou com medo, fareja agora sonhos novos num tapete vermelho em forma de coração.

O poema / a história conclui-se de modo surpreendente, de novo com a intervenção do sujeito poético / narrador que provoca o (jovem) leitor, presume-se que também ele lampeiro e sonhador, perguntando: «Alguém me pergunta, aqui ao ouvido, / se este gato atrevido aprendeu a lição? // O que te parece? Aprendeu ou não?»

Retomando o sentido da expressão idiomática, diremos que neste livro há gato, ai há há, não gato por lebre, mas gato maltês, personificação de todos os meninos-gatos que teimam em crescer arriscando, caindo, espreitando o outro lado do mundo, brincando, aprendendo e desaprendo lições… Enfim, este livro explora o sentido positivo que há / pode haver (haverá) na expressão «aqui há gato».

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