Escutei primeiro, li depois ou os livros da minha infância

Retomo hoje, neste Dia dos Amantes da Leitura, um texto sobre os livros da minha infância que escrevi para a (extinta) Casa da Leitura. Sim, porque desde muito cedo escutei e li livros. Alguns desses ainda hoje me (co)movem…

O meu primeiro contacto com os livros não foi a leitura, mas a audição. Conheci-lhes primeiro a voz emprestada e só depois a sua forma e textura. Durante os meus primeiros anos de vida, muito antes da escola, o jantar era sempre em casa dos avós, em redor da mesa oval que nos acolhia para a comida e para a conversa demorada que lhe sucedia. Foi ao colo do meu avô, homem terno e poético, agarrado à terra, que ouvi, lengalengueadas e ciclicamente repetidas, fábulas em verso que mais tarde vim a descobrir e a ler no livro Campo de Flores de João de Deus; no mesmo regaço escutei, deliciado, contos como a Parábola dos Sete Vimes, Luzia (enfaticamente contado por ser o nome de minha mãe), e Abyssus Abyssum que encontrei e li depois no livro de Trindade Coelho, Os Meus Amores.

Quando comecei a juntar as letras e a casar os sons com as ideias, ouvi a professora ler e comecei também eu a soletrar: “O P tem papo, / o P tem pé. / É o P que pia? // (Piu!) // Quem é? / O P não pia: / o P não é. / O P só tem papo / e pé” (excerto do poema “Passarinho no Sapé”). Cecília Meireles era, ao tempo, uma das autoras muito conhecidas e, além disso, predilecta da minha professora. Foi assim, e por esta razão, que o seu livro Ou isto ou aquilo se tornou para mim e para os meus companheiros um livro de que conhecíamos os textos (e que nos chegavam escritos no quadro ou simplesmente lidos) sem, todavia, lhe sabermos o tamanho, a ilustração ou qualquer outro pormenor. Mas era o nosso livro de eleição, pelo que fazíamos e nos divertíamos, aprendendo, com ele.

Mais tarde, no meu 4.º ano de escolaridade, alguém me ofereceu Os Bichos, de Miguel Torga, apondo-lhe a seguinte dedicatória: “Um livro é um amigo que sempre nos recorda os amigos”. Talvez por isso ou por qualquer outra razão indecifrável, tornei-me amigo da bicharada, a ponto de lhes dedicar algum do meu labor de escrita. O rumor e o cheiro destes contos acompanham-me ainda hoje, tal foi a marca que deixaram em mim quando os li pela primeiríssima vez.

Aos onze, doze anos comecei a escrevinhar versos, muito inspirado e influenciado por dois livros marcantes: Folhas Caídas, de Almeida Garrett e Serra-Mãe, de Sebastião da Gama. Estilos e formas tão diferentes desencadearam em mim um entendimento diferenciado da vida e do mundo, por via da emoção e dos sentimentos que tais livros provocaram. Guardo-os, ainda hoje, rabiscados, sublinhados, anotados, carregados de caligrafia pueril e observações inocentes. Marcas do tempo e urdiduras do registo da memória!

Seguiram-se livros que me tornaram cativo da leitura pela imaginação e engenho dos autores e pela consciência que em mim fizeram crescer da singularidade do mundo na diversidade possível das experiências humanas. Foram eles: O cavaleiro da Dinamarca, de Sophia de Mello Breyner Andresen (a que poderia juntar o seu quase desconhecido livrinho O Cristo Cigano), Uma abelha na chuva, de Carlos de Oliveira, As aventuras de João Sem Medo, de José Gomes Ferreira e, inevitavelmente, O Principezinho, de Antoine de Saint Exupery. Cada um destes livros, numa intensidade que ainda me escapa, contribuiu decididamente para a construção da minha mundividência autónoma, responsável e livre.

No dealbar da adolescência, por via do professor de Português, tive a fantástica oportunidade de contactar com dois livros absolutamente cruciais, em termos de compreensão literária e de fruição estética: as Poesias, de Álvaro de Campos e os Poemas Completos de Manuel da Fonseca. Do primeiro guardei o ritmo quase louco da Ode Triunfal e da Ode Marítima que me deliciava a “declamar” para companheiros e amigos. Do segundo, retive sobretudo a voz limpa e incisiva de Mário Viegas a dizer o poema Domingo. Mais uma vez foi a audição deste texto que me fez procurar, encontrar e ler a poesia de Manuel da Fonseca.

Os livros povoaram a minha infância. Chegaram, primeiro pelo ouvido, depois pela leitura e muito tardiamente pela análise e escrita. Eles são o alicerce de uma casa começada e ainda não terminada: a (minha) Casa da Leitura.

· Campo de Flores, João de Deus (Fábulas: 8 fábulas em verso)

· Os meus amores, Trindade Coelho

· Ou isto ou aquilo, Cecília Meireles

· Os Bichos, Miguel Torga

· Folhas Caídas, Almeida Garrett

· O cavaleiro da Dinamarca, Sophia de Mello Breyner Andresen

· Uma abelha na chuva, Carlos de Oliveira

· As aventuras de João Sem Medo, José Gomes Ferreira

· O Principezinho, Antoine de Saint-Exupéry

· Poesias, Álvaro de Campos

· Poemas Completos, Manuel da Fonseca

João Manuel Ribeiro

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