Tento colocar poesia em tudo o que faço…

De nacionalidade portuguesa, nasceu sob a constelação de gémeos em 1975, na cidade de Harare, Zimbabué. Com dois anos de idade fixou-se em Tavira e mais tarde em Braga, onde atualmente reside. Apesar de ser licenciado em Economia, Pedro Seromenho dedica-se inteiramente ao universo da literatura infantojuvenil e desde 2010 que faz parte do júri do Prémio Matilde Rosa Araújo. Entre várias obras publicadas, 900 – História de um rei e Porque é que os animais não conduzem? são dois dos seus títulos que fazem parte do Plano Nacional de Leitura. Em 2011 resolveu fundar a editora Paleta de Letras e, em 2013, tornou-se o patrono da “Biblioteca Pedro Seromenho” no Agrupamento de Escolas de Santa Maria em Tomar. Em 2015, e ainda sem pressa de crescer, o autor publicou o livro As gravatas do meu pai e tornou-se o patrono da Biblioteca do Centro Escolar de Lamaçães em Braga. No dia 12 de novembro de 2016 o autor comemorou dez anos de carreira literária com o lançamento da sua décima segunda obra infantojuvenil: A cidade que queria viver no campo. Agora, em 2017, acabou de escrever O meu avô consegue voar e Um livro imperfeito e encontra-se a ilustrar O rei pássaro.

Como surgiu o encontro com a escrita?

Começou precocemente com a leitura. Com os mundos mirabolantes que os livros ocultam. À medida que os lemos estes passam a habitar a nossa alma, a nossa forma de ver, de sentir e de ser. Queremos mais ideias, padrões, estereótipos e referências, e fica sempre algo por sonhar. Depois vem a escrita, os primeiros exercícios de reflexão, de experimentação, de manchar a brancura do papel com devaneios e libertações. No meu caso irrompeu em forma de poesia, mas não ficou por aí. Em seguida experimentei novos géneros de narrativa e novas formas de comunicar como o conto infantil. E foi aí que me descobri. Estava a terminar a licenciatura de economia quando reparei que a escrita já era a minha companheira. E ainda continua a ser.

Alguma obra mais marcante ou com um significado mais especial?

No que concerne à escrita escolheria o meu terceiro livro juvenil, o 900 História de um rei, que serviu as comemorações dos 900 anos de nascimento do primeiro rei D. Afonso Henriques. Sabia que não iria ser fácil. Os jovens ainda encaram a História de Portugal como algo enfadonho. Mesmo o retrato atual do D. Afonso Henriques ainda é o reflexo de um Estado Novo que o transformou numa figura austera. Apoiei-me nos nossos grandes historiadores, nomeadamente o José Mattoso, e depois conferi-lhe ritmo e ação com os antiheróis, a intriga e a conspiração, o amor e a paixão proibida, enfim, todos os ingredientes de um verdadeiro romance. Não se lê a trote, mas a galope.

Fale-nos do seu percurso…

A minha incursão pelo universo da literatura infantil não foi imediata. Tudo começou há dez anos com a publicação do meu primeiro livro, A Nascente de Tinta. Nessa altura ainda andava perdido no limbo dos números. À espera de ser resgatado. Comecei por visitar várias escolas de Braga e, quando dei conta, a palavra dos pequenos e dos grandes leitores já tinha contagiado outras cidades. Com naturalidade passei a viajar não só nos mundos dos meus livros, mas também de escola em escola, de biblioteca em biblioteca, numa caminhada tão bonita quanto memorável. Não posso esquecer as dificuldades e obstáculos iniciais que tive de superar, mas julgo que tem sido um percurso muito bonito. Construí amizades, conheci pessoas que admiro e respeito e visitei lugares que se tornaram lares. Enfim, aconteceram-me coisas incríveis. Fui pai, amadureci, lancei doze livros como autor e cresci como pessoa. Acho que tudo chega a seu tempo e tem o seu momento. Por isso quero continuar a ler, a escrever e a sonhar, como sempre fiz, mas sem pressa de crescer.

Como mais gosta de ser reconhecido: poeta, escritor ou ilustrador?

O mais importante foi o que aprendi com o meu avô materno. Por isso carrego o nome Seromenho. Prefiro ser reconhecido como uma boa pessoa, alguém que é justo e correto. Por isso valorizo tanto a humildade e a simplicidade. Basta estar feliz e sentir-me realizado. Ora isso acontece-me quando estou a criar, seja a escrever ou a ilustrar. Tento colocar poesia em tudo o que faço. Por exemplo, quando desenho, importam-me os sons, as rimas, as cores e o movimento. Ao contrário do que muitos julgam, a poesia não habita nas palavras, mas nas ideias. Seria como dizer que são as minhas mãos que desenham. Ainda houve uma altura em que vivi uma espécie de dilema. Serei escritor ou ilustrador? Terei de optar? Agora já não penso nisso. Preocupo-me em experimentar, em improvisar e inclusive em falhar, contanto que me sinta feliz e realizado. Faz parte de um processo de reflexão e de crescimento no qual fui tomando consciência das minhas falhas, fraquezas e limitações. Por exemplo, no que respeita à ilustração creio que subi alguns degraus nos meus dois últimos livros.

Que real impacto têm os prémios? É uma questão financeira? É motivação extra? É o alento necessário para não desistir?

Não sei qual é o real impacto porque nunca fui premiado. E agora que penso nisso, a verdade é que também nunca concorri a nada. Talvez um dia venha a experimentar. Porque sou muito curioso. Agora mais a sério, trata-se de uma opção pessoal. Apenas isso. Mas acredito que os concursos e os prémios literários são portas-peneiras que se abrem a novos talentos e revelam grandes promessas. Faço parte do júri do prémio Matilde Rosa Araújo e, quando lemos os textos que já nos chegam filtrados por um júri de pré-seleção, basta ler os primeiros parágrafos para separar o trigo do joio. E nem refiro ao que é oiro e brilha no escuro. Todavia, por si só, os prémios não significam nada. Conheço autores que os colecionam como troféus, mas não conseguem sair da sombra. Parece que não têm coragem para sair e explorar o mundo exterior, enfrentar o leitor ou aprender com a crítica.

Como é viver da escrita nos dias de hoje?

Não é fácil. Mentiria se dissesse o contrário. Os autores são autênticos lutadores. Poderia equipará-los aos navegadores de outrora. O problema é que muitos deles não sabem gerir a sua carreira, o seu processo de evolução, e perdem-se algures num oceano de oportunidades. Não estivesse o mundo literário repleto de vilões e armadilhas. Aliás, uma das coisas que mais me entristece ou enfurece é quando não valorizam um autor ou artista. Se é possível viver da arte e da cultura? Sim, é. Eu sou a prova disso. Ainda que tenha de me reinventar, todos os dias, para não entrar em vias de extinção.

Quando estava ligado aos números a percentagem de sucesso era reduzida… quando sentiu que estava na hora de mudar? E dos números surgiram os desenhos…?

Era um economista medíocre. Porque não gostava do que fazia. Ainda trabalhei como consultor e auditor durante oito anos, mas, com o tempo, a mudança tornou-se inevitável. Foi aos trinta anos que tomei essa decisão, esse passo de coragem, de abandonar tudo e acreditar. Comecei do zero, como uma folha em branco, e transformei-me num suspiro de alivio. O resto faz parte de um sonho que tinha desde menino. As histórias que escrevia, os desenhos que fazia, guardava, escondia, lia e relia, sem parar, para aprender e melhorar. São esses mundos e segredos que agora já posso partilhar.

Paixão, partilha, sonho, prazer… são palavras que lhe assentam bem?

Sim, não sei fazê-lo de outra forma. Gosto de me entregar a tudo o que faço. Gosto de inspirar, de motivar, de sentir e de partilhar. Quero deixar uma marca, mas sem deixar de ter prazer no que faço. Mais do que ser reconhecido. A vida é efémera e devemos homenageá-la com a nossa felicidade. Para haver sempre magia e sonho. A arte é uma surrealidade que nos prolonga, melhora e eterniza.

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