Quando escrevo, tenho que soltar amarras…

Clara Cunha nasceu em 1971, na cidade de Almada licenciou-se em Educação de Infância pela Escola Superior de Educação Jean Piaget. Autora do livro O Cuquedo, que conta com 10 edições e mais de 30 000 exemplares vendidos, de Feliz Natal Lobo Mau, em que a sua imaginação leva-nos mais longe, ao mundo fantástico dos contos tradicionais e das figuras lendárias, e de Faz-de-conta, uma homenagem à imaginação e à brincadeira sem limites

– Quem encontra quem? A Clara a escrita ou a escrita é que a encontra a si?

Acho que nos encontrámos mutuamente. Em criança era fascinada por livros e tinha a sorte de ter uma biblioteca mesmo no prédio onde vivia, abria duas vezes durante a semana às cinco da tarde e ao sábado de manhã. Não tinha muitos livros comparativamente às bibliotecas de hoje, mas para nós era um oásis.

Mais tarde, já na faculdade, tive um reencontro agradável com a literatura infantil num dos módulos que tive na faculdade com duas professoras fantásticas, a Dra. Conceição Lino e Dra. Paula Pina. Aí descobri a importância do livro infantil, e lembrei o fascínio que tinha ficado esquecido no passado. Os trabalhos de escrita criativa davam-me imenso prazer e tinha a facilidade de escrever textos divertidos.

Só mais tarde com a natalidade me dediquei e arrisquei enviar o meu primeiro original para uma editora, O Cuquedo, e fiquei tão surpreendida, que quando recebi a notícia que iriam editar, não acreditei.

– Pesquisando sobre a obra da Clara, fica-se com a ideia de que para si é fácil pôr-se na pele dos miúdos, pensando e agindo como eles. É mesmo assim ou isso dá muito trabalho?

É mesmo assim. Preciso apenas de estar motivada, ou de ter uma ideia, depois é como se abrisse uma torneira.

O facto de ser educadora de infância, e trabalhar diariamente com crianças, permite-me conhecê-las, perceber as suas necessidades, reconhecer as suas preferências. Uma das estratégias que utilizo para captar a atenção delas é precisamente, soltar a criança que há em mim, moderadamente, claro!

Quando escrevo, tenho que soltar amarras, obrigo-me a dizer disparates e a rir-me deles. Por vezes custa-me entrar, mas depois de lá estar dentro… não há limites, é só viajar!

– O Cuquedo vai já na 10ª edição. No seu entender, a que se deve tamanho sucesso?

O Cuquedo é um livro ingénuo e de uma simplicidade sublime, julgo que esse é um dos seus segredos. A criança identifica este livro como verdadeiramente seu, pela linguagem que utiliza, pela musicalidade em forma de lengalenga, pela repetição e pelo crescer em termos de numero. É uma estória cheia de movimento, completamente irrequieta, contá-la ou ouvi-la é um jogo.

Mas ainda há mais, tem um bicho que ninguém sabe como é, pois nunca ninguém o viu. Tem um nome estranho que não aparece em nenhum livro sobre animais ou dinossauros. Prega sustos, que é algo divertido, mas que ao mesmo tempo é um pouco assustador, portanto, a curiosidade da criança leva-a a explorar a criatividade e a imaginação, e isso é muito satisfatório para a criança.

Julgo ainda que este livro surte um efeito semelhante no adulto, desperta a criança adormecida.

– Acabou de sair o Cuquedo e um amor que mete medo. Há mais histórias escritas do Cuquedo?

Sim, há mais histórias do Cuquedo! Tchanananam!

O Cuquedo é um livro invulgar, durante muito tempo pensei se valeria o risco, escrever outro Cuquedo. Fui escrevendo, mas não me agradava o suficiente. É difícil manter a qualidade, manter o género e fazer com que seja outro êxito. Não queria desiludir! Por outro lado, o bichinho não me largava, e julgo que com o Paulo se passou o mesmo. Sabíamos que não iriamos ficar por aqui.

Quando a LH me lançou a proposta, foi impossível recusar. E está à vista o resultado.

– Fale-nos sobre projetos em que está a trabalhar.

Ando sempre com projetos na cabeça, quando se sonha uma vez e o sonho se torna realidade é difícil depois parar.

Para já, no verdadeiro sentido das palavras, um Lobo Mau com lançamento na feira do livro de Lisboa. Foi ilustrado pela Natalina Coias e está simplesmente fabuloso, será uma verdadeira surpresa para os pequenos, estamos todos ansiosos para ver o resultado final (não posso revelar pormenores, é um segredo!).

Para o Natal, um livro que nos fala sobre o artista e a arte, não vos posso revelar mais. Para o ano, um texto fantástico que me divertiu muito escrever, para meninos mais crescidos do primeiro ciclo, que ainda não tem ilustrador.

Um desafio gigante, mas que estou entusiasmadíssima para começar, e que será a ilustração do meu próprio texto. Espero conseguir corresponder às minhas próprias espectativas!

E por último e muito, muito importante, em parceria com a Vera Parreira, a proposta no OPP (Orçamento Participativo Portugal) do nosso projeto “INCLUSIVO – Livros para todos ”. O OPP é um processo democrático através do qual as pessoas apresentam propostas de investimento e que escolhem, através do voto, quais os projetos que devem ser implementados em diferentes áreas de governação. Conto com o Vosso voto.

– Escritor e ilustrador têm boa relação? Como foi trabalhar com o Paulo Galindro?

A minha experiência tem sido muito positiva. É um trabalho de equipa, nem sempre estamos de acordo, mas quando as ideias são discutidas normalmente o resultado é bom. Tudo por uma causa maior, o livro, um bom livro.

Com o Paulo, foi muito fácil. Ele é uma pessoa, muito divertida e com uma grande sensibilidade, julgo que o sentimento foi reciproco. Rimos sempre muito, porque ele diz muitos disparates, brinca com tudo. Tem sempre ideias muito loucas e vive a ilustração em direto, o que faz dele um ser esquisito e lunático (no bom sentido). Tem uma coisa que eu gosto particularmente, é mais esquecido do que eu! Para quem me conhece, vão pensar que é mentira. Mas não é.

– Costuma dizer-se que não há amor como o primeiro, na literatura também é assim?

Não sei responder a isso! O primeiro livro é a grande novidade, é como visitar a DisneyLand pela primeira vez. E esta visita correu muito bem. Foi tudo muito positivo, a minha relação com a editora, com o Paulo, a expectativa, o resultado e a reação do público ao livro. Eu atrevo-me a dizer, que foi perfeito!

Criar um livro é sempre uma festa, é sempre divertido, não aborrece porque as estórias são diferentes, temos que ser criativos e essa é a melhor parte, juntar as partes, isso faz com que cada livro seja sempre “especial”.

– Que importância dá aos livros publicados entre os Cuquedos?

Toda, são os meus meninos. Um livro não nasce só porque sim. Um livro tem muito de nós, tem a nossa alma, o nosso sentimento, o nosso pensamento, a nossa criatividade e imaginação.

Há aqueles que me divertiram enquanto os escrevia, os que me fizeram rir de boca escancarada, os que me fizeram sonhar… Cada um tem um significado diferente para mim, e a minha relação é diferente com cada um deles.

Leave a Reply

RECEBE NOTÍCIAS D'A CASA DO JOÃO!

Obrigado por te juntares à Tribo!

Algo está errado! Tenta de novo, por favor!

A Casa do João will use the information you provide on this form to be in touch with you and to provide updates and marketing.
%d bloggers like this: